A hora de falar das atletas trans

Novos olhares para o esporte

Até os 29 anos seu nome era Rodrigo. Época em que iniciou a mudança de gênero. Fez tratamento hormonal, cirurgia genital e mudança de reconhecimento civil passando então a se chamar Tifanny. Disso tudo a única coisa que não mudou foi a paixão pelo vôlei. Inicialmente em competições masculinas e agora brigando para continuar atuando pela equipe feminina do SESI-Bauru.

Em 2017, aos 31 anos, Tifanny atuou na Itália pela 2ª divisão da Liga Feminina. O que foi possível já que a atleta atendia aos padrões exigidos pelo (COI) Comitê Olímpico Internacional: nível de testosterona inferior a 10 nmol/L por pelo menos 12 meses antes da estreia em competições femininas. O sucesso a trouxe para o Brasil e o auge aconteceu nas quartas de final da Super Liga quando marcou 28 pontos e ajudou sua equipe a eliminar o SESC-RJ por 3 x 1! Durante o jogo, depois de um belo bloqueio, o técnico do SESC-RJ, Bernardinho, foi flagrado exclamando “Um homem, é foda!”. Ele se desculpou, mas a fagulha já havia caído sobre a palha eternamente seca.

A FIVB (Federação Internacional de Volei) ainda não liberou atletas trans a comporem seleções. O tempo passa e agora a entidade espera a decisão do TAS (Tribunal Arbitral do Esporte) sobre o caso da velocista trans sul-africana Caster Semenya, para se posicionar.

Esse debate é importe para o esporte e também para a sociedade civil. As questões sobre mudança de gênero precisam ser discutidas de forma mais ampla, com a participação de governos e cidadãos, afinal, estamos diante de uma nova fronteira ética. O que significa um território de incertezas.

Certeza, tenho eu, que esse assunto não pode ser sepultado de forma autoritária e amordaçada como o pretende o Projeto de Lei do Deputado Estadual Rodrigo Amorim (PSL). Seu argumento é a diferença entre homens e mulheres. Mas, afinal, quais são as verdadeiras intenções de um tipo político como esse? Isso é o que verdadeiramente importa.

Precisamos exigir o debate! Não perder essa oportunidade. Caso contrário, seremos calados pela lei do mais rápido, que não é o melhor, mas vai mais rápido.

*Rafael Alvarenga é professor de Filosofia e apaixonado por esportes

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