A comemoração da morte como estratégia eleitoral

"Bandido bom é bandido morto": Do delegado Sivuca, o criador da famosa frase, até Bolsonaro. Defender a morte dos adversários políticos nunca foi tão atual.

A eleição de profissionais ligados à Segurança Pública faz parte do processo de redemocratização brasileiraO slogan “bandido bom é bandido morto”, reproduzido hoje por simpatizantes do atual presidente, foi consagrado durante a campanha a deputado estadual de José Guilherme Godinho Ferreira, um delegado de polícia do Rio de Janeiro, conhecido como Sivuca.

Eleito e reeleito nas décadas de 80 e 90, Sivuca era “uma massa de músculos de 1m90 e muitos quilômetros de valentia (….), um ‘cana dura’, estimado pelos colegas novatos e veteranos da polícia carioca, superestimado pelos bandidos, que sempre evitam atuar em sua jurisdição: Madureira e adjacências.” (descrição contida num livro de entrevistas intitulado Barra pesada, publicado em 1977 pela Codecri, a editora do Pasquim). Sivuca fez muitos seguidores.

hoje chamada “Bancada da Bala” no Congresso Nacional (que reúne em geral estes profissionais de Segurança Pública, mas que inclui também o ex-ator pornô Alexandre Frota) sempre teve uma atuação truculenta, e um crescimento vertiginoso a cada eleição. Portanto, de Sivuca à Bancada da Bala, temos a consagração eleitoral de parlamentares truculentos em paralelo ao aumento da violência urbana. Os dois fenômenos sempre caminharam juntos.  

 Diferente dos tempo de Sivuca, hoje os representantes da Bancada da Bala são em número bastante expressivo. Apenas para termos uma noção: Câmara e Senado tinham, em 2018, 36 parlamentares. Com as últimas eleições, este número saltou para 102 deputados federais e senadores, ou seja, praticamente triplicou, segundo o jornal GNN, de Luís Nassif. Portanto, a pauta repressiva atualmente tem cada vez mais possibilidades de avanço, num país que já oprime de maneira escancarada os seus setores desfavorecidos. E a eleição de Jair Messias Bolsonaro à Presidência representa a consolidação inegável desta truculência vociferada por Sivucas ao longo da nossa História. Uma truculência por enquanto ainda verbal, é bom salientar. A observar: uma nova política de drogas está para ser anunciada no primeiro semestre, e vários sinais já foram dados no sentido de endurecimento em relação ao tráfico e consumo, destoando (algo típico deste governo) do que vem sendo praticado em quase todo o mundo.  

 Penso que esta truculência, que encontrou eco em setores médios da sociedade brasileira e que se traduziu na eleição arrebatadora de muitos parlamentares de um partido até então nanico como o PSL, tem sua catarse legitimadora na comemoração da morte dos adversários. Rodrigo Amorim, por exemplo, um advogado, foi o deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro. Ele  se consagrou ao quebrar, em um comício, a placa de rua que homenageava a vereadora Marielle Franco, assassinada por herdeiros de Sivuca! Foi o enaltecimento da morte de uma parlamentar “defensora de bandidos”, sob os aplausos de uma multidão ensandecida!

Uma das deputadas federais mais votadas de São Paulo, a policial Kátia Sastre, se elegeu exibindo em seu programa eleitoral os tiros que deu em um assaltante caído em frente a uma escola. Uma outra morte comemorada. “Bandidos” e “defensores de bandidos” para estes agentes políticos são os dois lados de uma mesma moeda. Amorim e Sastre têm, além de Sivuca, um outro precursor que dificilmente será batido: Ubiratan Guimarães, o coronel da polícia militar de São Paulo que comandou o massacre do Carandiru, onde 111 detentos tiveram suas vidas ceifadas em 1992. Guimarães seria eleito deputado estadual dez anos depois, com cerca de 50 mil votos. Se fosse candidato hoje, não teria menos de 200 mil.  

*Paulo Henrique Dantas é professor de Sociologia nas cidades de Macaé e Rio das Ostras, e possui Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Além das aulas, realiza palestras sobre Direitos Humanos, sempre tendo como objetivo contribuir para uma sociedade mais justa.

Ao defenderem a morte dos adversários, sejam eles os indivíduos em conflito com a lei (o assaltante de Sastre ou os 111 prisioneiros do coronel) ou aqueles que os defendem (Marielle Franco e todos os ativistas de direitos humanos), os herdeiros de Sivuca reunidos na Bancada da Bala em Brasília, nas Assembleias Legislativas país afora e no Planalto, vão aos poucos, inviabilizando a nossa já frágil democracia.

Com sua postura arrogante, ao difundirem a violência e o ódio ao outro, negam a política como forma de resolução dos conflitosÉ evidente que Amorins, Sastres, Frotas e Bolsonaros teimam em ignorar o que a História tem nos ensinado há bastante tempoque da negação da política à eliminação física do outro, distância é muito curta. O problema é quando a população também começa a ignorar este ensinamento, como sinalizado nas eleições de 2018. Nestes casos, a barbárie vai se tornando, a cada dia, uma possibilidade mais próxima.  

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