Urbália: O controle do território como afirmação do poder

Baile da gaiola e o controle social pelo Estado

O território no Brasil sempre foi motivo de preocupações estatais. As dimensões continentais foram um motivo de sofisticação dos mecanismos de controle, seja através de imposto, passando pela densidade demográfica, com a curva do controle policial, ativa.

O ponto nevrálgico do Brasil passa por como ocupar o território, quem ocupa e suas potencialidades, a partir de quem se considera como dono ou quem apenas transita. Uma tarefa difícil, por sinal, e a estratégia de ocupação nunca foi harmônica.

Quando o IPTU não funciona, a polícia entra no jogo e a justificativa passa por atividades criminosas de alta periculosidade para as incursões, mas reparem que apenas algumas atividades ilícitas são consideradas de alta periculosidade e de uma consequente intervenção do Estado.

Se formos pensar qual crime é mais perigoso, quais critérios são utilizados? Pensa aí. Se formos considerar todos crimes prescritos, todas as pessoas teriam que ter algum tipo de condenação e seria um colapso social. Só que apenas um pequeno grupo é amplamente condenado pelo Estado e pela sociedade.

No pequeno grupo, o tráfico de drogas entra, mas apenas uma parte do tráfico, aquela que comercializa, que está nos territórios de pouca assistência estatal. Relação, no mínimo para se desconfiar, certo? Não se desconfia, se naturaliza por conta da massificação da ideia de um território com pessoas tendenciosas para atividade criminal, bem lógica da geração espontânea, que a ciência já refutou faz séculos.

Não existe geração espontânea no caso, existe mesmo uma ideia de política pública onde alguns territórios são investidos e outros nem tanto, só que como os territórios desassistidos têm um alto contingente de pessoas, e é um número necessário para se mover máquinas, como a eleição, por exemplo, algum controle tem que ser feito.

Se não for no amor, é na dor. Quem não ouviu? O Estado age na dor, no medo e o tráfico de drogas vira pretexto de inserções violentas e com o auxílio de uma narrativa que passa pela mídia e outras instituições, qualquer pessoa de um território desassistido, é um possível criminoso.

Possíveis criminosos reunidos é um problema daqueles e quem é capaz de organizar um evento que reúna milhares de possíveis criminosos, é alvo certo. Pense, controlar pessoas é uma demonstração máxima de poder, desde sempre. Obviamente se busca um monopólio para esse controle, ou pelo menos, uma associação com grupos que desejam esse controle para se repartir o poder.

Qualquer movimento que ameace essa lógica é perigoso e quem comanda o movimento que ameace essa lógica precisa ser parado. É o caso de Rennan da Penha. Milhares de pessoas criando uma lógica própria de troca, alheia ao Estado e suas imposições, era o Baile da Gaiola, assim como é qualquer baile funk, que é antes de mais nada, uma resposta direta a desassistência estatal aos direitos básicos.

Pessoas reunidas durante tanto tempo junto, trocando ideias, formas, fluídos, energias pode gerar coisas incontroláveis, em que o caveirão e o snipper serão inócuos, então, prende-se quem comanda o baile, quebre o espírito dessas organizações e se mantém o poder estabelecido. O baile funk na favela representa o abalo do poder representado pelo governador e as forças militares, legais e milicianas.

Por isso Rennan da Penha foi preso e por isso há incursões constantes nos bailes funks de favela no Estado do Rio de Janeiro todo. Até onde isso se sustenta? Sem apontar um caminho fácil, mas nosso marco civilizatório tá zuado…

*Fabio Emecê é MC, poeta, escritor e alvo…

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