A diversão violenta

O que meus olhos viram no carnaval?

Eu e meu olhar sensível estávamos no meio da maior festa do mundo e pude ver mulheres ainda mais dispostas a se tratar bem, grupos de mulheres e lgbt’s mais fortes e unidos, e como que mesmo no meio da festa, comportamentos machistas, racistas, abusivos e etc, foram rapidamente interrompidos pelo público ao entorno. Ver o crescimento de uma “minoria” consciente e unida pra fazer uma festa melhor.

E nesse aspecto, valeu a pena estar lá, ver como nós mulheres pretas nos sorrimos muito mais, nos abraçamos muito mais, e criamos uma ligação bonita nesses tempos violentos.

Nessa mesma festa eu vi o tédio na qual essa cidade entrega os jovens e questiona porque o jovem se sabota. É óbvio que o comportamento social da cidade de Cabo Frio é irresponsável, não se preocupando em dar entretenimento de qualidade e criticando o que acontece nas trincheiras da juventude local.

A polícia militar de Cabo Frio, no último dia 04/03 – segunda-feira de carnaval, teve um comportamento NOJENTO em debochar do desespero das pessoas no meio de um tiroteio. Pessoas que não tem culpa de nada e que no primeiro instante tiveram que reagir sem ajuda, a polícia que teve um comportamento irresponsável em todos os dias de festa, eu vi spray de pimenta e policial desrespeitando mulheres estando fardado.

A violência que eu quero falar é do abandono, uma cidade deixada, uma população deixada e a juventude, que pior ainda, não sabe como sair desse cenário caótico. Brigas por motivos toscos, como se nessa época do ano, descontar raiva gratuitamente fosse permitido.

O tédio causa isso, a cidade que não oferece NADA, apenas crítica os comportamentos que ela mesma causa. Chega a ser engraçado ter o prefeito no bloco de rua LGBT, autoridade que entregou mais ainda a cidade ao entretenimento da margem. A maior festa do mundo, no cenário político mais confuso do mundo, com uma população desinformada, com taxas de DST altíssimas, a maior festa do mundo pulando em dívidas e possivelmente exploração estrangeira em terras indígenas.

A maior festa do mundo, mostrando que mesmo com o povo feliz, os problemas ainda estão lá, e crescendo, num ambiente menor eu falo da cidade de Cabo Frio, mas é nacional, as críticas cabem ao país inteiro. O povo está ciente que estamos perdendo a luta, que nosso país caminha pra um colapso doloroso, talvez por isso a Mangueira ser campeã foi merecido e necessário. Falar do que é constrangedor, fazer doer essas memórias que a elite deseja esquecer, que a elite quis embranquecer.

Os meus olhos sensíveis viram nitidamente a crise, que agora tomara proporções ainda maiores. Que o meu país consiga sobreviver, talvez ano que vem o cenário seja outro.

*Talytha Selezia é poeta, mulher preta e integrante do coletivo Ónix

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