Caso Budega: ex-aluna oficializa denúncia na Delegacia da Mulher em Cabo Frio

Edson, pai da Kéren, ao Prensa: "Prefiro ele preso pagando por seus crimes".

Após as denúncias contra o Ângelo Correa dos Santos, conhecido como Maestro Budega, nas redes sociais, a artista Kéren-Hapuk Andrav, de 22 anos, foi até a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) de Cabo Frio nessa segunda-feira (4) registrar um boletim de ocorrência. A acusação é de que Budega teria abusado da jovem quando ela tinha 9 anos e fazia parte do Projeto Apanheite-te Cavaquinho, onde Budega era coordenador.

Foto: Manuela Paiva Ellon

“Fui com a Manuela, minha namorada a DEAM, relatei o abuso, e fiz a denúncia. Já está registrado. Minha irmã e minha avó, que foram as pessoas para quem comentei uma vez quando ocorreu e nunca mais toquei no assunto quando era criança, foram intimadas a prestar depoimento na delegacia”, disse Kéren.

Nesta terça-feira (5), a jovem pretende ir ao Ministério Público (MP) relatar todos os abusos sofridos quando era pequena. Além disso, Kéren procurou saber como anda o processo de 2010, onde o Budega à época foi acusado de ter assediado uma menina de 10 anos. “Em seguida o Budega será intimado a prestar depoimento. O policial que me atendeu averiguou como anda o processo da denúncia daquela menina de 2010, e ainda está em aberto, ou seja, ele tem se saído impune há 9 anos. O próximo passo é ir ao Ministério público para saber desse processo e cobrar justiça”, afirmou a artista.

De acordo com a denunciante, ir a DEAM foi um passo importante e que muitas pessoas alegam que a menina está fazendo “fofoca”. “Denunciar na DEAM foi um passo importante, porque desde que tornei público fazendo a denúncia nas redes, existem algumas pessoas que estão dizendo que estou fazendo ‘fofoca’, ‘complô contra ele’ com o objetivo de me ‘promover’. Existem pessoas que não tem a noção da seriedade e complexidade de um abuso infantil, mesmo que tenha sido no passado e eu nunca tenha falado sobre isso… Eu tive motivos, bloqueios, medos, mas que estou vencendo. Isso faz parte da nossa cultura patriarcal, da cultura do estupro, de descredibilizar a vítima”, desabafou.

Hapuk ainda fala que “as redes têm um papel muito importante, por graças a denúncia, ao tornar público, pude ter acesso a pessoas que também sofreram abuso ou foram perseguidas por ele, e pude ter forças para denunciar oficialmente na Delegacia da Mulher. Agora todo suporte é bem-vindo para que não joguem isso debaixo dos panos novamente”, finalizou.

Ao saber de todo o caso, o pai da Kéren, com exclusividade ao Prensa, falou sobre o ocorrido e espera justiça. “Espero que o caso e outros que parecem ter sido abafados por alguém influente ou pela mídia sejam esclarecidos e que o crápula maldito pague o devido preço. Ainda o prefiro preso pagando por seus crimes que um pai de família por defender a honra de seus filhos”, disse.

O Prensa tentou contato com o Budega e seus representantes jurídicos para esclarecimentos deste novo fato e até o momento do fechamento da matéria não obteve resposta.

Entenda

Em janeiro deste ano, o Charitas de Cabo Frio receberia um evento do Angelo Budega, maestro que comandou por anos um projeto de música na cidade. O evento, porém, nunca aconteceu. A Secretaria de Cultura, em comunicado oficial, alegou avaria no local por conta da forte chuva que afetou o município dias antes. Algumas pessoas, no entanto, acreditam que o “O Brasileirinho” não deveria sequer ser considerado. Isso porque, em 2010, Budega foi acusado de abusar sexualmente de uma menina de 10 anos de idade, de acordo com o inquérito policial 812/11 e R.O. 07098/2010.

Ao Prensa de Babel, uma pessoa com conhecimento sobre o caso, que pediu para não ser identificada, relatou o ocorrido, como fez anteriormente. Segundo a denúncia, Budega foi até a casa onde a menina morava com a mãe para levá-la para aprender uma música nova e os dois desapareceram por três horas. Quando voltaram, a avó da criança notou que ela desceu do carro transtornada,  trêmula e com as mãos cruzadas sobre o peito. A tia também estava presente e, percebendo o estado, perguntou o que tinha acontecido. A menina, então, relatou o abuso, que afirmou ter acontecido onde hoje fica o Shopping Park Lagos, nas Palmeiras. Na época, o local era uma área isolada.

Em sua rede social, a Manuela fez duras críticas. Devido ao post, o relato da Kéren veio a tona.

Em uma postagem denunciando os casos de pedofilia envolvendo Budega numa rede social, outra jovem deixou um comentário afirmando também ter sido abusada pelo maestro quando era criança. A reportagem do Prensa entrou em contato com Kéren -Hapuk Andrav e recebeu seu relato.

Kéren conta que conheceu Budega aos 9 anos, quando o músico foi à escola onde ela estudava convidar os alunos a participar do projeto social Apanhei-te Cavaquinho. Apaixonada por música, a jovem passou a frequentar as aulas de cavaquinho em outra escola e, depois, na casa de Budega, quando passou para o núcleo avançado e começou a cantar e ensaiar para apresentações públicas. Os ensaios, ela conta, aconteciam duas vezes por semana; ela era a única menina do grupo e afirma ter sofrido coação e agressões físicas por parte dos meninos da turma.

Em um comentário nas redes sociais, Kéren chegou a contar sobre o ocorrido.

O Prensa entrou em contato com o Budega e seus advogados para ouvir a sua versão dos fatos. Em resposta, os seus representantes alegaram que “estão sendo analisadas as providências cabíveis, se for o caso.” Segundo eles, “a principal questão refere-se ao questionamento do porque o Sr Budega se encontra participando, em poucos dias, de três eventos significativos na cidade. (…) Na verdade o que se deseja, é se promover tentando destruir a imagem e reputação às custas da honra alheia. Ocorre que se trata de questões que envolvem a privacidade das pessoas, no caso se tratar de criança ou adolescente, envolve matéria com sigilo judicial”, disse.

Em nota, a Secretaria de Cultura de Cabo Frio, alega que “em primeiro lugar repudia pedofilia e, em casos de suspeita, acredita que o foco seja a investigação com os órgãos competentes para que tudo seja comprovado ou não e acredita que a sororidade é o melhor caminho para se chegar à verdade dos fatos”.

De acordo com a Secretária de Cultura, Meri Damaceno, o cancelamento do evento do último dia 27 de janeiro com o Ângelo Budega foi, realmente, por conta de avarias no Charitas. “A respeito da nota de cancelamento do evento do último dia 27 de janeiro de 2019, no Charitas, com o músico Ângelo Budega, a mesma é completamente verídica. O espaço está precisando de reformas estruturais importantes e com a chuva do dia 25, tivemos problemas como a maioria da população cabofriense em suas casas. Estamos até hoje secando documentos que quase perdemos e estudando como evitar o mesmo problema nas próximas chuvas”, afirmou.

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