Eu me limito a uma cor?

A militância preta pode ser como uma retirada de identidade.

Falo sobre isso com tranquilidade, as feridas são para serem mexidas sim. Quando falamos de movimentos de resistência, pensando em estudo sobre as causas das minorias, em pesquisas de grandes líderes, em referências a serem trocadas, resistência contra o silenciamento, mas nos últimos tempos, tenho visto uma militância de qual eu não me vejo fazendo parte, essa que escolhe quais causas defender, essa que tem a fala do “preto suficiente”.

Que criam uma rede de exclusão de pretos que não tem esse discurso de ódio, ou esses ideais de “palmitagem” e falas de segregação. Uma exclusão do que pensa diferente, do que se veste sem seguir tal coisa, do que estuda e defende igual, ou até ainda mais, porém não está inserido na imagem visual que se criou dentro do movimento.

Quando eu digo que não me limito a uma cor, e porque sou maior, sou uma mulher, sou uma poeta, uma pessoa que gosta de livros, uma movimentadora cultural, uma bissexual muito bem resolvida, sou alguém que se descobre mais a cada dia.

Não sou só uma mulher preta, que tenho que usar tranças, que tenho que saber dançar, que tenho que sempre ter gritos de ordem prontos, eu quero poder transitar, e se o movimento é em busca de libertação do rótulo, nos rotulam como os que militam só quando convém.

Mas e se um dia eu quiser escutar minha música preferida? Que é de uma pessoa branca, Serei menos preta por isso? E se eu me apaixonar por uma pessoa branca, devo não amar?

Pois o movimento que busca liberdade pro meu povo, diz que é errado? Mas errado não seria ser forçado a estar em coisas, com pessoas, que muitas vezes você não queria estar.

Se sou preto, e da militância, só vou a eventos de preto, só escuto música preta, só estudo o que conheço, e ignoro um milhão de coisas incríveis que podem acontecer paralelo a essa bolha?

Afinal isso é uma bolha, eu quero ser livre o suficiente pra me conhecer, para lutar por todos nós, respeitando as decisões que são só minhas, como a música que vou escutar, como a pessoa que vou amar, não quero ter receio em falar que algumas referências minhas são brancas, e pessoas incríveis.

Quando eu percebo que minha identidade, individual e particular não cabe dentro desse falsa liberdade de expressão no movimento, me retiro do movimento, afinal se não me cabe, se não me respeita como gente, não me respeitará como artista, como crítica, minha arte não cabe em lugares de visões tão limitadas, que não se permite mudar por nada, prefiro me movimentar sozinha a ser incomodada em coletivo.

Talytha Selezia é poeta, mulher preta e integrante do Coletivo Ónix

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