Cor tem sexo?

Quem veste qual cor no Brasil?

Brasilia DF 04 01 2019 ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. .Valter Campanato/Ag. Brasil

É nessas horas que percebo o quanto boas aulas de sociologia fazem falta nos bancos escolares. Como já era de se esperar, a nova equipe ministerial não deixou a desejar ao seu novo presidente, no quesito “pérolas”, para usar um pouco de ironia e não ter uma gastrite.

Sei que o assunto foi pauta de todas as redes sociais, lares e bares do Brasil semana passada, mas cabe ainda um pouco de reflexão sobre o tema. Se a nova ministra não tivesse faltado às aulas de Sociologia, a mesma saberia que cor não tem gênero ou sexo. Ou seja, azul é só uma cor assim como o rosa. Que foi a sociedade quem estabeleceu que rosa é cor de menina e azul cor de menino.

Logo, se uma sociedade constrói padrões para seus membros o mesmo pode ser desconstruído. Já que a sociedade é dinâmica e a mudança é um movimento inexorável da vida social. Que discursos que aprisionam e cerceiam os indivíduos já não está mais na moda, já que ela queria estabelecer as novas tendências de moda para o nosso verão!

O que está na moda, em todas as estações, são as pessoas se vestirem com a cor que elas bem entenderem. É serem livres para fazer suas escolhas. E que as mulheres não sejam subjugadas ao rosa, ao marido violento, a uma sociedade machista que com base nesses discursos conservadores engrossam as estatísticas de feminicídio.

É lamentável a Ministra dos Direitos Humanos abrir seu discurso de posse com questões tão conservadoras e retrógradas como essa estória de que menino veste azul e menina veste rosa. Além disso, é contraditório e equivocado em um país com tamanha desigualdade social e econômica, como o nosso, se preocupar com a cor da roupa que as crianças vestirão ao passo que os números de casos de feminicídio, estupro, homofobia e racismo só crescem.

A meu ver ela deveria se perguntar se por acaso todas as crianças no Brasil têm roupas para vestir, se as crianças no Brasil tem acesso à escola de qualidade, se elas têm o que comer em casa e não querer definir a cor da roupa, pois sabemos que nem todas as crianças têm a possibilidade de ter uma roupa, ainda mais de uma cor específica.

Essa indisfarçada preocupação com a cor da roupa deveria ser canalizada para questões realmente sérias. Como os altos índices de homicídio dos homossexuais, da população negra e até mesmo um programa mais robusto para tratar da violência contra mulheres. Já que estamos falando de Direitos Humanos.

Uma coisa é certa, esses discursos tentam nos tirar o foco para assuntos mais sérios. Sinceramente me pergunto se esse tipo de discurso é real, no sentido de que é apenas falta de inteligência ou não passa de uma estratégia política bem pensada para alienar, desmobilizar e distrair a população?

 Renata Souza é Professora de Sociologia e Mestra em Sociologia Política

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