Vereadora Gladys sobre o aborto: “Não sou demagoga”

A vereadora foi a única que teve coragem de se posicionar solidária aos alarmantes casos de morte de mulheres no país

Vereadora Gladys Costa

Durante o episódio protagonizado pelo vereador da igreja católica em Búzios, Niltinho de Beloca (MDB), na última terça-feira (7), em que este colocou em pauta a votação de uma moção de repúdio, a 4ª emitida em 25 anos de município, ao Supremo Tribunal Federal (STF) por conta da discussão da descriminalização do aborto, o posicionamento da vereadora Gladys Costa (PROS) chamou atenção e surpreendeu as manifestantes feministas que foram à sessão em protesto à medida medieval do parlamentar.

Gladys ressaltou suas convicções como evangélica, no entanto, apelou ao bom senso dos outros parlamentares, na grande maioria homens, e claramente desconhecedores de dados e números relacionados a esta pauta nacional, que não fossem hipócritas. Pois, defendeu, o aborto é uma realidade e a descriminalização trata de pôr fim a morte de mulheres pobres, que, por diversas razões, recorrem a essa medida extrema.

Na ocasião, as manifestantes também ressaltaram que não estavam ali defendo o aborto, mas sua descriminalização. Algo simples de se compreender se retirada as paixões religiosas para o sereno debate sobre o tema que é caso de saúde pública.

Sobre o posicionamento parlamentar em relação ao tema, o mesmo não se viu da vereadora Joice Costa (PP), que acompanhou o posicionamento do vereador da igreja católica.

A Câmara de Vereadores de Búzios é composta por nove cadeiras, apenas duas ocupadas por mulheres.

O protesto organizado pela Frente Feminista de Búzios, que até o momento é formado por 7 organizações, reuniu mulheres e homens a favor da descriminação ao aborto

Prensa de Babel: Vereadora, confesso que a senhora surpreendeu a todos com seu posicionamento quando defendeu a descriminalização do aborto, demonstrando compreensão da dura realidade a que mulheres, em especial as mais pobres, se encontram. Não teve medo de não ser compreendida por uma parcela conservadora do eleitorado da cidade?

Gladys Costa: Não. Eu sou evangélica, mas tenho que ouvir a todos, tenho que legislar para todos. Eu vi a vereadora Joice gravando, porque já sabia do meu posicionamento, e me perguntou, inclusive, se eu era a favor do casamento gay também. Eu não sou hipócrita. Sou evangélica e, infelizmente, já soube de suicídio de filhos de pastores por serem homossexuais. Para mim eles nasceram assim, e se nasceram assim tenho que amar. Ela já saiu sem ouvir o pessoal LGBT. Eu tenho que ouvir a todos. Se eu tiver que perder a eleição por conta da minha opinião, que seja. Pior são os vereadores da igreja católica desta câmara que votaram contra o impeachment, deixando o atual prefeito acabando com a cidade.

Prensa: Pode-se afirmar que a senhora sabe separar a política da religião?

Gladys: Sim. Minha sogra é kardecista, e meu procurador é do candomblé, e todo meu gabinete é composto por católicos e evangélicos. Respeito todos eles.

Prensa: Acredita então que há uma busca por distorcer alguns de seus posicionamentos?

Gladys: Claro. Eles estão sempre fazendo política contra minha pessoa. É igual a posição sobre a maconha: sou contra as drogas, quero os jovens longe das drogas, claro. Mas ela, a maconha, deveria ser vendida na farmácia para acabar o tráfico de drogas, deveria ser legalizada. É uma questão de inteligência.

Prensa: Vereadora, gostaria de voltar ao tema da descriminalização do aborto. Saber mais dessa sua posição progressista em relação ao tema. É possível?

Gladys: Claro. Olha, auxiliei uma mulher, moradora de um bairro da cidade, inclusive era da igreja católica. Não posso citar o nome para proteger ela, fez um aborto usando cytotec*, teve hemorragia, teve que dar entrada no hospital e lá foi detectado que estava há 10 dias com o feto morto no útero. O hospital não tinha o medicamento especifico para cuidar dela. Nem o marido sabia, a família não sabia.  As razões que levaram essa mulher a cometer um aborto não sou eu que vou julgar. O que sei é que ela poderia ter morrido, e que existe venda de cytotec em Búzios. Esse é um caso, mas existem muitos outros acontecendo aqui na cidade, e tem muitas meninas que tem medo de dizer aos pais e fazem isso por conta própria, pondo em risco suas vidas. E você pensa que esse ato não pesa na cabeça dessas meninas? Acha que uma mulher que aborta faz isso com felicidade? Não é uma escolha. Sou contra a morte, a favor da vida, respeito os 10 mandamentos. Mas não faço discurso demagogo. O aborto é uma realidade e sempre vai acontecer, só que se for descriminalizado, tudo direitinho, até a mulher, em especial as mais jovens, chegarem a de fato realizar esse ato elas passarão por todo um processo de pré atendimento, inclusive suporte psicológico, que até lá a maioria irá desistir de abortar. O aborto é um trauma. Quem é a favor do aborto? Ninguém é.

Prensa: A Frente feminista que realizou o protesto nesta sessão tinha uma carta coletiva, assinada por 7 entidades ligas aos direitos da mulher, e com mais centenas de assinaturas individuais de mulheres e homens em que indicavam que ao invés de uma moção ao Supremo, a Câmara como um todo poderia se preocupar com os casos de estupro subnotificados na cidade, com os números crescente de gravidez na adolescência, e o desmonte do aparato público à segurança e saúde da mulher. Concorda?

Gladys: E tem alguma coisa em relação a isso para a mulher aqui? Uma mulher estuprada não sabe a quem recorrer, por exemplo. E tem também algo para os jovens não se envolverem com drogas? Algum projeto nesse sentido? Tem é discurso demagogo.

Prensa: Vale lembrar que a carta não pode ser lida.

Gladys: Se tivessem me dado eu leria.

Prensa: Diante o que foi visto aqui, tanto pelo teor da moção sem antes um debate democrático, e pelo visível desconhecimento do tema abordado, dá para dizer que à Câmara de Búzios é machista?

Gladys: Não é só a Câmara, o mundo é machista.

Prensa: Faltou, no caso especifico da situação da mulher que aborta, no mínimo sensibilidade da Câmara?

Gladys: Faltou. Uma mulher que aborta, uma jovem, nunca esquece disso. Carrega um peso para o resto da vida, e ainda tem de correr o risco de ser presa, e pior, de morrer.

Prensa: Se sente sozinha na Câmara de Vereadores de Búzios?

Gladys: Completamente sozinha.


* O cytotec é um remédio antiácido e antiulceroso que contém misoprostol, uma substância que impede a produção de ácido gástrico, protegendo a parede do estômago, especialmente em casos de gastrite ou úlceras.
Este remédio foi aprovado pela FDA na década de 80 para o tratamento de problemas no estômago, no entanto, por também provocar contração uterina, começou a ser usado apenas em hospitais qualificados, para causar o aborto durante o primeiro trimestre de gestação. Por isso não deve ser usado durante a gravidez, fora do ambiente hospitalar. 
Nunca se deve tomar esse medicamento sem recomendação médica, principalmente em casos de suspeita de gravidez porque pode ser perigoso para a mulher e para o bebê.
Alguns dos efeitos colaterais mais frequentes do uso deste medicamento incluem diarreia, dor abdominal, cólicas, dor de cabeça, azia, sangramento vaginal, distúrbios menstruais, enjôo, inchaços, coprisão de ventre, fadiga, febre, sensação de falta de ar, retenção urinária, ansiedade, sede, amnésia, tonturas, falta de coordenação, vista embaçada, anemia, dificuldade de coagulação e desidratação.

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