O solitário inglês

Denis Kuck em ação pela Inglaterra

Torci para a Inglaterra contra a Colômbia. Timidamente. Assisti ao jogo aqui da redação do Jornal do Brasil. A proporção era de 50 para 1. O amarelo de Mina, Falcao e Ospina virou a amarelinha de Philippe Coutinho e companhia. Apesar da minha desvantagem numérica, tudo correu com fair play. No entanto, em outras bandas, recebi xingamentos de amigos. Alguns me mandaram ir à merda, entre outros impropérios de arquibancada. Acusaram-me de deslumbrado e provinciano. Outros disseram que era uma vergonha apoiar  a seleção de um país imperialista. Que eu merecia ir para o pelotão de fuzilamento.

No Brasil e nos Estados Unidos, a vergonha da escravidão ocorreu dentro de seus territórios. Impossível, ainda que se tente, esconder isso. No caso do Reino Unido. É mais fácil. Os escravos estavam no Caribe, a quase 5 mil quilômetros de distância da sede do império. Segundo o historiador David Ulusoga, nascido em Lagos de pai nigeriano e mãe inglesa, a história da escravidão britânica foi varrida para debaixo do tapete.

O Ato de Abolição da Escravatura (The Slavery Abolition Act), de 1833, libertou 800 mil homens e mulheres que eram então propriedade de britânicos. A trajetória de um bravo político, branco, William Wilberforce, que lutou para que isso acontecesse, é bastante explorada pelos ingleses e virou até filme. O que se fala menos é que os donos de escravos foram muito bem indenizados pela perda de suas “posses”. Ao todo, foram pagos, em valores atualizados, cerca de 17 bilhões de libras para 46 mil pessoas. Valor que não faria inveja a nenhum banco (aliás, ajuda tão grande só ocorreu em 2009, quando o governo do Reino Unido socorreu instituições bancárias após a crise financeira). Os escravos não receberam um tostão. Como se não bastasse, o ato de 1833 determinava que deveriam fornecer 45 horas de trabalho não remunerado por semana, durante quatro anos, para seus antigos senhores. Os dados foram registrados por um projeto da University College London. Triste colonizador que enriqueceu, e esconde isso, à custa da tragédia e exploração humana.

Mas há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a vã filosofia do pelotão de fuzilamento e dos fiscais de torcida, para citarmos apenas um inglês, entre tantos, que contribuíram tanto para a arte, cultura, música, literatura, esporte, ciência…

Em 1940, os britânicos desempenharam um papel muito mais heroico na história da humanidade. No início daquele ano, os nazistas comemoravam conquista atrás de conquista. Nunca em toda a Segunda Guerra Mundial estiveram tão perto da vitória. Se isso não ocorreu, devemos à bravura dos britânicos e a do primeiro-ministro Winston Churchill, que decidiram lutar sozinhos contra Hitler, ainda sem os americanos e soviéticos, até a última gota de sangue e suor. Até, literalmente, milhares de mortes. Os fatos que se desenrolaram no período estão descritos no belo livro Cinco Dias em Londres, de John Lucaks, que narra a disputa no Gabinete de Guerra entre continuar combatendo os alemães e fazer um acordo com o Terceiro Reich, o que chegou perto de ocorrer e poderia ter mudado a história da humanidade.

Torci para a Inglaterra. Nasci na Inglaterra. Em Londres. Embora o editor de esportes do Jornal do Brasil,  Toninho Nascimento, brinque que eu tenha voltado com 10 dias para o Rio de Janeiro. Pior que foi quase isso. Meu pai, Cláudio Kuck, trabalhava como correspondente da Folha S. Paulo, depois de O Globo, e acabei nascendo por lá, assim como meu irmão. Três anos antes da lei mudar, o que me garantiu a cidadania britânica.

Por outro lado, cresci ouvindo histórias londrinas, vendo fotos, imaginando. Era como se tivesse crescido um pouco na terra da rainha. Em 1998, revisitei, ao lado do meu pai, a Inglaterra pela primeira vez. Ele me levou nas casas onde morou e no hospital no qual nasci. Em 2015, vivi por quase um ano na cidade onde vim ao mundo. E o dia a dia em Londres pode ser bastante duro, sim. Conheci muitos brasileiros deslumbrados (esses sim), que menosprezavam seu próprio país. Senti saudades e voltei. Aqui, muitos perguntavam, espantados, porque retornei. Pensava nos dizeres do poeta Mário Quintana: “não há nada mais provinciano do que sair da província”. Esses deslumbrados…

Certa vez, um colega falou que deveria ser estranho ser alguém como eu, meio que sem origem definida. Na hora, não entendi, sorri amarelo. Depois, percebi que ele estava dizendo que eu não era ninguém… Pois sou, sim. Voltei ao Rio com meses de idade, e embora não tenha sido criado no subúrbio, Éden da infância feliz, me dou por satisfeito pelas crostas de sal que foram se formando em minha pele a cada mergulho no mar. Pelas minhocas catadas no Lago Norte, em Brasília, que depois viraram isca de peixe no Lago Paranoá. Pelas anchovas grelhadas desfrutadas no barraca da Chiquinha, em Geribá. Por meu sangue gaúcho, tchê, e pelos sanduíches abertos devorados na Caverna do Ratão, na Protásio. Por meu sangue judeu, que veio fugido da Hungria e Rússia para o Brasil, mas que poderia ter ido para a terra que viria a ser Israel, porto seguro criado pelo sionismo para todos os judeus, afinal  o antissemitismo está por aí – e pode voltar em qualquer lugar, em qualquer hora. E até por meu distante sangue sueco, do meu bisavô Arão, e alemão, de Otto e Natália.

Estou tirando o passaporte da minha filha, Antônia, de um ano. Ela é linda. Quer saber? Se nada mais der certo, se o Bolsonaro ganhar as eleições, arrumo as malas e vou com ela e a mãe, Olívia, de volta para Londres. Sem esquecer o traste do Macaé, nosso vira-lata.

Vou comer a salsicha alemã da tiazinha de Portobello, ir nas barraquinhas asiáticas de Brick Lane no domingo, andar no segundo andar dos ônibus, descobrir algo no Borough Market, passear, e até nadar, em Hampstead Heath, caminhar pelos canais escondidos da cidade, pisar na faixa e os carros pararem, ouvir música jamaicana nas quebradas de Brixton.

Vou beber uma pint de Guinness (que é irlandesa) num pub bem antigo e escuro. E  sem música. Vou visitar o novo estádio do Totenham e votar no Jeremy Corbyn. Um estrangeiro em minha própria terra. Mas não serei mais um solitário. Vou torcer, com companhia, enfim, pela Inglaterra. Mas se estivesse lá hoje, seria só até uma final contra o Brasil, que infelizmente não aconteceu… Quem sabe em 2022?


Denis é jornalista do Jornal do Brasil, mora no Rio, adora Búzios e colabora com o Prensa de Babel quando quer

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