Maio de 68, a sombra e o ovo da serpente

Por André Cansado

André Cansado é um jornalista em desencanto e músico

Daniel Cohn-Bendit, um dos protagonistas do Maio de 68, disse em entrevista ao programa Conversa Com Bial da Tv Globo que ele se considera anticomunista e anticapitalista. Libertário, ele acredita em uma sociedade o mais livre possível da interferência estatal. Fez vários elogios ao capitalismo verde e às análises ecológicas como meio emancipatório político-social. Mas assim como Cazuza em Ideologia ele diz procurar o que já está fazendo, se diz neutro porém reforçando a ideologia capitalista. É bom lembrar que Cohn-Bendit era um dos grandes líderes de esquerda no movimento sessentista e que se dirigia ao amigo Patrick Viveret, por exemplo, como um direitista. Então qual o motivo para, além dos citados, vários ideólogos de 68 terem se transformado em figuras do status quo?

Adorno e Horkheimer influenciaram nossos tempos como Marx dizia que a história se repetia: primeiro como tragédia, depois como farsa. Em sua obra clássica Dialética do Esclarecimento os autores alemães analisaram o desencanto do projeto iluminista no período pós-guerra. Ali começa a tradição de crítica e denúncia aos fundamentos iluministas como raízes dos totalitarismos do século XX. A pergunta que sustenta o trabalho é: se o iluminismo era a ponte para a verdade, para o nosso retorno ao Um, por que acabamos no fascismo e no stalinismo (apesar de o último não ser tão mencionado pelos autores). Para os autores o problema começa já em Platão. A filosofia platônica é a inauguração da separação do homem com o mundo. Nos fez totalizar as experiências individuais de ser em uma única narrativa sobre o absoluto. O mundo das ideias seria a porta de entrada para o totalitarismo. Em contraste com o pré modernismo que elevava o indivíduo ao verdadeiro patamar da sua identidade por colocar em suas mãos o sentido de verdade.

O que essa crítica desconsidera é o próprio caráter formalista do totalitarismo. Nesses sistemas a realidade precisa ser constantemente relativizada, assim as classes dominantes se mantinham no poder. Quem melhor que Goebbels para admitir isso? Não seria esse o sentido mais literal da expressão “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”, falsificar o Real a ponto de torná-lo diluído de sentido objetivo? A própria frase de Goebbels tem o mesmo problema, foi atribuída ao ideólogo nazista mesmo sem provas concretas de sua autoria. Referida mil vezes a ele, tornou-se de sua autoria. Com as experiências marxistas não há a mesma dimensão formalista? Na URSS, e em quase todas os países do socialismo real, os planos quinquenais e as promessas de passagem ao comunismo eram constantemente relativizados. A impossibilidade de fazer essa passagem esbarrava nos limites do marxismo e na incapacidade das elites estatais em reinventar as estratégias revolucionárias e assim buscar o caminho de um sistema realmente igualitário. Stalin retornou às tradições nacionalistas na URSS depois da morte de Lenin. Um pouco antes de morrer o revolucionário atestou em vários textos sobre os limites da teoria marxista no levante revolucionário russo. Muitos textos apontavam para a necessidade de uma reinvenção radical da praxis marxista.

O formalismo é a sombra jungiana que apavora as análises culturais (e por que não dizermos que o identitarismo atual, filho de 68, de Derrida, de Foucalt etc, é também terceira teoria política, como o nazismo?). A liberdade sem limites de significar leva ao completo abandono do Real e inevitavelmente à capitulação pelo capital. Acreditava-se à época que o caminho para criar o “socialismo de rosto humano” era o retorno ao pré-moderno. Mas e se o problema for exatamente esse rosto humano? Não no senso comum empregado ao termo, mas em um sentido bem mais literal, em tentar transformar uma revolução em algo estritamente individual e livre de determinações. Não por acaso os autores franceses foram os precursores do dito pós-modernismo. Mesmo Sartre se rendeu ao formalismo depois da Revolução Cultural Chinesa. A barbárie do socialismo real os fez enaltecer a cultura como caminho essencial para a emancipação, não mais no campo econômico e material. A liberdade viria das ilimitações sensoriais. Podemos imaginar um nazista ou qualquer outro ideólogo do capital em desencanto inventando narrativas extremamente idealistas para assim redimir as elites e exercer o seu gozo. Por isso Badiou está certo ao questionar o motivo do Maio das greves trabalhistas não ganharem tanto espaço nas comemorações quanto os jovens rebeldes e sexualizados do movimento universitário pequeno burguês. Onde somos anticapitalistas e anticomunistas ao mesmo tempo podemos ser absolutamente qualquer coisa. Che sabia claramente que o fechamento do ser em seu interior é essencial para a aceitação do sujeito revoltado e revolucionário pela hegemonia liberal.

Uma bestialidade que não conhece limites, que não tem fronteiras nacionais. A bestialidade do exército de Hitler é como a bestialidade norte-americana, é como aquela dos paraquedistas belgas, é como aquela dos imperialistas franceses na Argélia. Pois é da natureza do imperialismo transformar homens em animais sanguinários determinados a flagelar, assassinar e destruir os últimos vestígios da imagem de um revolucionário e de um partidário de todo regime que luta por liberdade. A estátua de Lumumba foi destruída, mas amanhã será reerguida, ela nos lembra da trágica história desse mártir da revolução mundial e que não podemos confiar no imperialismo de nenhuma forma. Nem um pouquinho, nada![1]

Por isso a pergunta dos autores sobre o iluminismo precisa ser repensada hoje. Se o totalitarismo tinha raízes no pensamento platônico, o que fez seu ressurgimento em uma época pós-platônica? Luta de classes, como sempre disseram os autores marxistas. Por isso a escola de Frankfurt errou em culpar a razão instrumental quando para manter uma classe dominante a razão instrumental é constantemente ignorada. A negligência do legado iluminista e a liberdade irrestrita de sentido são a razão do totalitarismo. O islamofascismo não tem absolutamente nenhuma pretensão científica, nem mesmo formalista como no nazismo e stalinismo.

Viveret disse recentemente que Maio de 68 ainda não terminou[2]. De fato, ainda não temos nenhum desfecho sobre ele. O que não podemos esquecer é o velho conselho de Walter Benjamin sobre revoluções fracassadas: Elas sempre vão acabar no fascismo quando as elites o capitularem e ao povo. Afinal “É proibido proibir” também não seria atraente aos olhos do fascista e de seu gozo perverso?


[1]https://www.youtube.com/watch?v=V5tR7rDj4iw
[2]https://outraspalavras.net/posts/viveret-maio-de-1968-ainda-nao-terminou/

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