COMPRAR NÃO (Lição de vida)

Morei seis anos no famoso Edifício Máster, na Rua Domingos Ferreira, Copacabana (vejam o fantástico documentário do Eduardo Coutinho, “Edifício Máster”). Nas madrugadas de quarta para quinta feira ninguém conseguia dormir. Três horas começava a montagem da feira livre. Roncos e fedores dos motores de velhos caminhões, descarregando mercadorias… Barracas sendo montadas, quebra de caixotes, marteladas… Gritaria ensurdecedora dos feirantes num linguajar que nem o mais competente “brasilianista” entenderia. Gírias, palavrões, corruptelas, gargalhadas…

A feira era imensa. Quatro longos quarteirões, da Rua Siqueira Campos até a Barão de Ipanema. Os moradores tinham que retirar seus carros da garagem na noite anterior. Quem esquecia o carro estacionado na rua levava grande prejuízo. Os feirantes iam empurrando, empurrando – ou carregando, mesmo que estivesse com freio de mão – até uma das ruas transversais. O carro era amassado, arranhado, multado e rebocado. Aconteceu comigo! Adorava fazer compras nesta feira. Todas as cores do mundo. Aromas, sabores… Muitos punguistas…! Várias vezes presenciei a louca gritaria & correria do “Pega ladrão!!! Pééégaaa…”. Certa vez vi um vendedor de alho levar uns tapas de uma velhinha. Anunciava o seu ‘produto’ gritando o seguinte: “Queralho…? Queralho da cabeça roxa…?”. Havia um músico que sentava no meio da feira num caixote, com surdão e pratos pendurado nas costas. Tocava-os com pedais. No colo o acordeom. Gritava…: “Agora é todo o mundo…!” Começava a cantar “Carinhoso”. Eu, da janela do quinto andar, mais centenas de pessoas – da feira e dos prédios – cantávamos este maravilhoso hino do Pixinguinha e do Copacabanense Braguinha. Que maravilha!!! Cantávamos, também, “Cidade Maravilhosa” e músicas de bom gosto. A feira era uma festa… Moradores endinheirados conseguiram acabar com esta maravilhosa feira. Ela foi comprimida na Praça Serzedelo Correia, também conhecida como “Praça dos Paraíbas”. Para quem não sabe, a Rua Domingos Ferreira é paralela a praia de Copacabana (“quadra da praia”, segundo os corretores de imóveis).

Numa bela manhã ensolarada, eu fazia compras nesta feira. Carrinho na mão direita e meu filho – na época com quatro anos – na mão esquerda. Uma senhora magra, alta, grisalha, bem vestida, nariz adunco, fitava o meu filho sem parar… Achei estranho. Aonde nós íamos ela estava… “Deve ter tido filho ou neto parecido com o meu Pedro Henrique”, pensei… Parei prá comprar um saco de limão. Ela voou em cima da gente gritando: “COMPRRAR NON! COMPRRAR NON!!!” Rapidamente protegi meu filho com o meu corpo e precatei meus braços, em defesa. O feirante deu um pulo de susto para trás! E ela…: “Eu explicar…” Com a língua enrolada – gringa, com certeza – continuou: “Nonbom. Non de Deus. De laborratórrio. Aduba química e agrotóxica. Non semente”. Mostrou-me outro tipo de limão, amarelo, casca fina, com sementes e o dobro do preço. “Esse bom. Non doença…”. Ela era naturalista e estava bem intencionada. Não queria que nós comprássemos porcaria. Começamos a andar juntos. Peguei um enorme molho de couve e ela, novamente: “Comprrar non…” Levou-nos em outra barraquinha onde tinha minúsculos molhos de couve, cujas folhas eram perfuradas por “bichinhos”. “Bichinho come, nós também comer…” Realmente, as couves grandes não têm furinhos de “bichos”. São vistosas, porém, plantadas com adubo químico e regadas com agrotóxicos.

Nesta mesma barraquinha mostrou-me cenouras de no máximo dez centímetros de comprimento, com talo e folhas. “Está, muito bom. Poder comer folha refogada. Cenourra grande non de Deus”. Os pequenos pés de alface tinham minhocas e caracóis dentro. E ela: “Este, marravilha”. Comprei dois. Continuamos a conversar. Pediu-me que não desse açúcar refinado para o meu filho: “Veneno purro”, afirmou. Orientou-me para comprar arroz integral e açúcar mascavo. Carne branca sempre… Encerrou afirmando que brasileiro não sabe o que come. Curvou o comprido corpo, beijou a testa do meu filho com enternecimento e desejou-nos longa vida. Nunca mais vi esta maravilhosa criatura.


Luciano Moojen

*Luciano Moojen Chaves é um pseudo intelectual Latino Americano, que tem “estatura mediana, gosta muito de fulana, mais sicrana é quem lhe quer…!”. Não tem “dinheiro no banco nem parentes importantes” e é “vindo do interior”.

FOME DE CULTURA NA DITADURA    (Mesa de Cabeceira)

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1 comentário

  1. Gil Luz Diz

    Beleza de crônica. Como fazem falta atualmente. Eram comuns, no O Globo, na Última Hora, no Correio da Manhã. E na Manchete e na O Cruzeiro. Não mais…

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