O calibre 22 e a sua misericórdia – Um conto de Javier Ulla

Sentiu uma leve dor na pálpebra direita que lhe dizia que algo não estava bem. É certamente, não estava. Seu corpo acompanhava a ideia de ser uma granada que atingia tudo ao redor o um coquetel molotov que incendiava quem se bate-se contra ele.

Olhou atentamente a secretaria do governador, e com especial atenção podia ver como se formavam entre os lábios dela a frase “Tá. Foda-se”. Sentia que nada mais acontecia no universo inteiro, somente essa frase que entrava em seu corpo como uma espinha até o fundo de sua alma.

A única coisa que podia passar por sua cabeça nesse momento era toma-la fortemente por seus platinados cabelos, levar seu rosto contra a parede e transformar sua massa encefálica em pequenos pedaços vermelhos que sairiam por seus orifícios nasais. Tudo isto ao grito de “Piranha, filha de puta!”. Rangeu os dentes e atinou uma resposta. Definitivamente não podia ficar ali. Um erro administrativo o deixara sem trabalho e além disso sem o pagamento dos últimos três meses, que dia a dia ia reclamar sem resposta alguma. Mas, não. A mulher deu meia volta, fechou a porta e a escutou falar com um tal “Gatão” sobre seus planos à noite.

Ele deu meia volta e foi caminhando à sua casa. Uma ou outra lágrima fruto da raiva foi derramada sobre suas bochechas. Lágrimas amargas, frias sobre seu rosto avermelhado e com duras feições, diante dos olhares curiosos dos transeuntes.

Lá também estavam sua mãe e irmão mais novo que estudava a insossa carreira de Contador, provavelmente para deixar muitos caras como ele em situações similares.

Se serviu de uma dose de Absolut Apeach puro. Havia que adocicar a sua boca ardente. Além disso, logicamente, uma bomba molotov não se faz com água mineral.

Entrou em sua casa de solteiro aos trinta e de uma só vez cheirou algumas gramas de cocaína. Espalhou duas brancas trilhas e puxou-as com o nariz e foi até sua biblioteca. Entre Les Écrits de Lacan e um exemplar de O Anticristo de Nietzsche, havia curiosamente um exemplar da Bíblia que havia trazido de uma visita a uns amigos do sul do país.

O abriu e calado entre suas folhas, estava lá esperando o momento. Escuro, mas brilhante que uma noiva. Um calibre 22 que provavelmente era a única coisa misericordiosa em quilômetros a sua volta misericordiosa e justa, tanto quanto uma.moeda que gira no ar. A guardou dentro do bolso interno do casaco verde oliva que usava. Chegou até a rua e tomou um taxi. Não ia derramar nem a mais infima gota de suor. Devia ser duro e seco. Rápido como um raio que cai dentro do mar e com a exatidão de um operação matemática.

Não necessitava muito tempo nem para pensa na sequência de justiça e nem na própria justiça. Mas, já estava tudo planejado para dizer a verdade. Nem um movimento calculado movimento de xadrez poderia ter jamais esta perfeição e frieza.

Primeiro deveria dizer que havia ido buscar sua papelada e segundo, entrar na sala da secretária, terceiro: um simples disparo entre seus olhos castanhos escuros. Xeque. Depois deveria golpear a porta e entrar no escritório do governador e ali outro disparo. “Xeque Mate”. A última vez que ele gatilhasse seria na sua própria cabeça, que seria finalmente coroada com metal.

“Escutou, rapaz? -foi interrompido pelo motorista- Não vai ter sorte. Nem esses ladrões também não, aí você ve que há um Deus. Ah, a verdade que você teve sorte e não chegou lá. Realmente há um Deus”.

Foi então que mirou desconcertado ao taxista.

Um escape de gás e um cigarro mentolado nos lábios da secretária do governador acabavam de se converter na arma escolhida pelo universo nesse agridoce dia.


Saiba um pouco mais do autor 
Naseu em junho de 1989, em uma cidade do noroeste argentino chamada Santiago del Estero, ano que transformou a história do mundo por causa das Revoluções que derrubaram os Estados Comunistas do Bloco do Leste, com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da Cortina de Ferro na Europa.
Esse ano também nasceu Taylor Swift e segundo a astrologia chinesa foi o ano da serpente.
Muita coincidência para um ano só, o que só pode ter como resultado o nascimento de quem escreve hoje essas palavras.
Vinte e cinco anos depois mudou-se à região dos Lagos no Rio de Janeiro, Brasil, para viver experiências novas e largar a sua antiga vida no sertão argentino de peronismo ou neoliberalismo, de Pátria ou corporações.
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