Se eu votaria no Lula. Não.

“Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia.”, a frase dita pelo próprio Lula no dia histórico em que discursou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC dias antes de ser preso é a chave que abre a compreensão sobre o porquê ele, se as eleições fossem hoje, ganharia em todos os cenários mesmo preso.

Após a prisão a mídia tradicional tem se dividido na estratégia de fingir que Lula não existe, com a da tentativa de desconstruí-lo. É a segunda que me chama atenção, até porque a primeira era previsível no jornalismo deles. Botam em paralelo o Lula quase octogenário bem a esquerda com gravações do “Lulinha Paz e Amor” que subiu à presidência nos idos de 2000. Era um Lula com discurso de centro, é verdade.

O objetivo é evidente: pegá-lo na contradição. Fazem isso porque compreendem que, e nesse caso a mídia é apenas instrumento, há forças maiores- algumas até inconscientes por trás disso tudo, a prisão não surtiu o efeito que esperavam.

Essas forças que citei acima não são tão esotéricas quanto as forças que Jânio Quadros afirmou tê-lo obrigado a renunciar em 1961, e que abriu o portão para 25 anos de ditadura militar. Vamos trocar essa “força” por “alguém” ou “alguns” e afirmar que são eles o que dão segurança a uma pessoa como Moro a afrontar decisões do STF. E, como bem expressou Leonardo Boff recentemente no Twitter, “(…) Este alguém está dentro e fora do Brasil num conluio que não exclui parte do próprio STF”. Alguém que está acima dos políticos brasileiros, alguém pra quem a política é só mais uma ferramenta.

Se eu queria votar no Lula? Não, eu não queria. Eu queria que o Brasil tivesse outras novas opções de liderança forte e alinhada com a política de distribuição de renda, democratização do ensino superior, erradicação da miséria… e queria até mais para o Lula, queria que Dilma tivesse terminado seu governo – mesmo tendo sido um governo ruim, e Lula estivesse cumprindo o que prometeu de ser um “diplomata”, andando pelo mundo contando sua história.

Mas quem pensou que isso poderia acontecer, como eu, foi ingênuo. Porque se o homem Lula, esse contraditório que agora é exposto nos telejornais e programas de entrevistas, que levam FHC para fazer lobby pra Alckmin com a desculpa de que está lançando livro, estaria pelo mundo aumentando o tamanho da tal ideia que enxertou em meio ao seu discurso bem ensaiado para aquele dia em que seus opositores esperavam que a foto que viralizaria  era a do líder sendo levado pela polícia, derrotado. Sabemos que não foi bem isso que aconteceu.

Mas por que ele não pode espalhar essa “ideia”? A resposta é simples: Se pelo homem Lula não dá para pôr a mão no fogo, pela ideia dá. E que ideia é essa? A “ideia”, ao contrário do Lula, não tem como ser presa ou morta. Essa ideia é a teimosia de não ter morrido de desnutrição ainda criança, algo tão comum no Brasil antes dele. Essa ideia é a coragem de sua mãe de migrar do Nordeste para São Paulo para se manter viva e também manter os seus filhos vivos.

Essa ideia é a ousadia de se tornar um sindicalista, e aos 33 anos liderar uma greve histórica, que culminaria com sua primeira prisão, era o ano de 1980.

Mais que o voto o poder dos trabalhadores é o de parar a produção, e não foi Marx que disse isso? Desconcertante também para a afetada esquerda brasileira que teve de ver um operário fazer o que a sua elite intelectual só conhecia na teoria.

A ideia é tão forte que funda uma Central Única de Trabalhadores (CUT), a mesma que 3 anos antes une trabalhadores, intelectuais, estudantes e setores progressistas da Igreja católica, e fundam um partido com nome no mínimo provocativo: dos Trabalhadores.

A ideia perigosa é de que qualquer “filho de ninguém” pode decidir não ser, mesmo que sejam funções dignas, faxineiro ou outra profissão a que seus pais assumiram sem ter opção de escolha. Essa ideia dá aos “filhos de ninguém” a ousadia de acreditar que podem até ser presidentes da república, quem sabe até reeleitos, e até influenciar na eleição de outra pessoa e na reeleição dela também. Essa ideia pode criar o disparate de que qualquer brasileiro pode ser admirado dentro e fora do país mesmo não sendo “filho de alguém”. Isso não pode acontecer de novo, não é? É arriscado que outras pessoas pensem assim.

E se o governo destinar uma pequena parte da renda pública para que os “filhos de ninguém” não parem de estudar após o ensino fundamental e sigam estudando até o ensino superior? Imagina se além desse pensamento essas pessoas ainda estiverem nas mesmas faculdades dos “filhos de alguém”? E se de repente os “Filhos de Ninguém” se tornam advogados e depois juízes? Aqui está o perigo dessa ideia. Essa ideia pode fazer com que os “filhos de ninguém” cheguem em massa a algum lugar em que em algum momento seus filhos serão “um alguém”.

Não tem nada a ver com Lula, mas sim com a ideia que ele, mesmo contraditório e errôneo como qualquer homem, representa. É isso que em vão tentam prender até a morte.

 

Artigo publicado originalmente no Brasil247   

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