Quem tem medo da inteligência?

José Carlos Alcântara é consultor empresarial e Assessor da Presidência da ACRJ Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Por José Carlos Alcântara

Ainda jovem, Winston Churchill acabara de pronunciar seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns e foi perguntar à um velho parlamentar amigo de seu pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse em tom paternal: “Meu jovem, você acabou de cometer um grande erro. Você foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa e isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra, ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, você deve ter conquistado no mínimo uns trinta inimigos. O talento assusta!”

Ali estava uma das melhores lições de abismo, que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. Se isso ocorreu lá na Inglaterra, imagine aqui no Brasil? Não é demais lembrar do poeta português António Aleixo:

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma Ciência

Temos de admitir que os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam apetite pelo poder. Mas, é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas, por onde os talentosos não conseguem passar. Em todas atividades encontramos essas fortalezas estabelecidas, as panelinhas inexpugnáveis às legiões dos lúcidos.

Numa extensão do Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa se fingir de burra, se quiser vencer na vida. É pecado fazer sombra a alguém, até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas, boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um jovem talentoso que os possa ameaçar.

Eles conhecem bem as suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar certas tarefas que os mais dotados realizam com um pé nas costas. Na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender. É um paradoxo angustiante e infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas, que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.

É sábio o conselho de Nelson Rodrigues: Finge-te de idiota e terás o céu e a terra.

O problema é que os inteligentes gostam de brilhar. Que Deus os proteja. Outro problema é que nem sempre o poder é fruto da inteligência neste mundo que vai de mal a pior. Que Deus nos proteja.

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