Porque Me Chame Pelo Seu Nome não é um romance gay

Indicado ao oscar de melhor filme e melhor ator para Timothée Challamet, o principal mérito de “Me Chame Pelo Seu Nome” é a fuga do eixo que até aqui embalou os filmes que se apropriam de temas como homofobia, luta por direitos civis ou a culpa, a tragédia ou o sofrimento para falar de relacionamentos entre pessoas de mesmo sexo. Talvez por isto desagrade boa parte da comunidade LGBT. O filme optou pela leveza e não pela didática do manifesto. Seus personagens não possuem armários de onde sair, pois são perfeitamente identificados com sua natureza heterossexual. O adolescente Elio recebe com perversa impaciência o estudante americano Oliver, contratado pelo pai para ajudá-lo numa pesquisa na ensolarada casa de veraneio na Itália. Em sua explosão hormonal o adolescente descobre o sexo com uma amiga, se masturba com um pêssego e se apaixona pelo visitante. Nenhum drama, nenhum conflito, a não ser o de enfrentar Oliver e dizer o que tem que ser dito. A partir daí o filme narra a entrega dos dois personagens, sem qualquer patrulhamento, pedagogia ou clichês homoeróticos. Lida com a sexualidade mas na verdade é sobre o amor e suas armadilhas que o filme quer falar,  fiel ao livro de André Aciman que inspirou o roteiro de James Ivory.  Por isso a frase eu-te-amo não é dita e sim a fusão dos dois nomes: Oliver chama Elio de Oliver. Elio chama Oliver de Elio. Oliver fica na Vila por um período curto de tempo. Para sublinhar esta transitoriedade o diretor se apropria de uma metáfora: moscas pousam e voam em diversos planos da película especialmente durante as cenas de ócio. Moscas vivem de quinze a vinte dias, o encontro dos personagens seis semanas.

Madruga é artista plástico, mora em Búzios.

O diretor italiano Luca Guadagnino filmou a trama sem puritanismo mas também sem expor desnecessária ou gratuitamente os corpos dos atores Timothée Chalamet e Armie Hammer. Um dos momentos mais comentados do filme é o compreensivo diálogo entre pai e filho sobre o relacionamento dele com o visitante, para muitos improvável para uma época em que a Aids fazia suas primeiras vítimas. Mais uma vez, o filme não quer ser educativo nem panfletário. Seu interesse é desvendar a vulnerabilidade dos seres em terrenos desconhecidos. À exemplo do livro, o filme constrói uma narrativa sincera, sem afetações, sobre a delicadeza e brutalidade no campo das emoções. Impossível não sermos tocado pelo filme.

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