Eleitor, Escuta!

Por *George Berner

O sugestivo título desse texto não é meu. Ele foi escrito há aproximadamente cem anos por um conhecido militante anarquista francês chamado Sébastien Faure, em 1919, quando foi publicado pelo Bureau Anti-Parlamentaire. Faure, foi um pedagogo e propagandista do forte movimento anarquista francês e europeu, nos fins do século XIX e início do século XX, como também um dos principais co-fundadores e colaborador do periódico Le Libartaire.

Aproveitando a oportunidade em que adentraremos num ano eleitoral, nada mais oportuno que redigir esse texto trazendo alguma reflexão, que nada, verdade não são novas, mas importante para serem revistas.

Imagem de Diário do Centro do Mundo

A Rede Globo de Televisão iniciou uma campanha intitulada “Que Brasil você que para o futuro”? Conclamando a população para participar dessa campanha enviando vídeos, em formato retangular, via celular, onde os participantes emitem opiniões sobre o que eles esperam do Brasil. Não entrarei aqui no mérito de sinceridade dos participantes, se querem só aparecer na televisão, se ousam expor suas vaidades ou egos, nada disso. Mas analisar de forma bem serena o que se esconde atrás dessa iniciativa. E como sempre vivemos numa “sociedade do espetáculo”, tentarei analisar esse contexto tendo por base os textos de Sébastien Faure, que são atualíssimos.

O Brasil tem um histórico de autoritarismo desde a sua fundação. Não é raro encontramos em sua história, vários períodos de intensa repressão, perseguição e assassinatos a movimentos sociais, líderes personalistas, movimentos sindicais, entre outros. Sem contar um alto índice de corrupção, bandidagens e acordos espúrios, principalmente protagonizados por elites inescrupulosas, perversas e autoritárias.

Essa estrutura assim construída como alicerce, nunca se desfez, e mesmo sendo transferida de Império à República, os novos mandatários jamais consentiram em mudar esse alicerce. As tradicionais famílias que herdaram essa estrutura perpetuam até hoje essa perversa herança.

Um desses exemplos é o modelo de gestão política, uma estrutura bicameral (Congresso e Senado), aliados a uma força midiática internacional, as conglomerações jornalísticas, composta por um grande canal de televisão e jornal impresso. Nesse pacote, as eleições são uma importante estratégia para que essas famílias, que controlam essas estruturas, se perpetuem nessa relação de poder. Manter esse ‘status quo’ é a engrenagem para impulsionar essa dominação.

Essas duas instituições políticas (Congresso e Senado) além de corruptas, são verdadeiros balcões de negócios. É só acompanhar o cotidiano de notícias denunciando uma variedade de crimes, escândalos e assassinatos. E como não se pode esperar muita coisa, são os políticos que protagonizam sempre os mesmos crimes de corrupção, esquemas fraudulentos, negociatas, sempre com rombos de milhões a bilhões de reais.

Em uma nota preliminar, do texto de Sébastien Faure, organizado por e traduzido por Plínio A. Coêlho, uma parte se faz destaque:

“…ensaiadas de tempos em tempos (o período de uma campanha eleitoral) mas enumerada em dia a dia, entre uma eleição e outra – exibiram seus atos de cinismo, velhacaria, fanfarronice, servilismo, bajulação, traição, astúcia, canalhice, tartufismo, perfídia, ladroagem. Políticos de todos os partidos (esquerda, centro e direita, como se, de fato, houvesse alguma diferença) ocuparam a ribalta. Sob as luzes da mídia falada e escrita – esses personagens histriônicos e pérfidos enojaram-nos com sua desenvoltura para o escárnio.”

                                                                                   (“Politi”Commedia Dell´Arte tupiniquim, pág. 7)

Agora mais uma campanha, entre tantas outras, onde a mídia testa mais uma vez seu poder e força, “convocando’’ para a “festa da cidadania”, para a “participação”, nos tentando convencer de uma suposta “civilidade”. Fazendo o destaque para o tema, o autor de Eleitor, Escuta! Nos remete a para um apontamento bem interessante, quando nos diz – “não há ninguém que seja capaz de fazer frente às exigências do legislativo”, pois, continuando “Parlamento é, pois, sinônimo de incompetência. É igualmente sinônimo de irresponsabilidade”.

Nas serenas e lúcidas observações do Sr. Faure, quando este diz: “Dizem que o parlamento é irresponsável e uma proposição tornada tão evidente que cessou de estar em discussão”.

Alguém tem mais alguma dúvida? Se o povo prefere a ser cego e constituir sua cegueira como conformidade, esse é o caminho. Se o povo necessita de heróis ou personagens com “dons” messiânicos, a preferir a luta por sua autonomia, que assim se constituam escravos de suas próprias consciências e vontades. Concluindo, então, o Sr. Sebastién Faure nos esclarece em sua evidente análise:

Imagem Folha de São Paulo

assim, eleitor, se tem um bom amigo, evita incitá-lo a ser candidato , se ele se torna candidato, evita favorecer sua candidatura e, se quiseres conservar nas ideias que são tuas, e que ele diz querer defender na câmara, um caráter, uma inteligência, um devotamento, recusa-lhe o teu sufrágio.”

Pois mais que votar seja a evidencia real de perpetuar o sentido da exploração e da escravidão mental, como da ilusão e do engodo que é a democracia representativa do capitalismo, a eleição é o instrumento de nos roubar a dignidade, o sentido da auto-organização, da potencialidade humana da criatividade. Romper com essa lógica, é romper com a domesticação da nossa conformidade e da nossa estúpida submissão, como cordeiros treinados para o matadouro.

Dessa forma, o Estado como se configura em nossa mente e compreensão, não é somente um agente da violência e da repressão, ele é, sobretudo, um ser mitológico, criado em nossas psiques, que por 25 séculos serve aos seus mais insensíveis algozes para nos exprimir o último suor de sangue de nossas labutas. Seus defensores alegam a sua função administrativa da coisa pública, num regime social que, politicamente, todos deveriam obedecer a alguns e no qual, economicamente, tudo pertence a tão poucos. Os interesses são diversos, opostos, contraditórios. Não existe interesse comum, interesse geral, não existe coisa pública.

FAURE, SÉBASTIEN. Eleitor, Escuta! Instituto de Estudos libertários – IEL – 2006.               


*Leia outros textos do George Berner,, professor de Sociologia da Rede Estadual de Ensino. Mora em Cabo Frio. 

Leia também Mais do autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.