A “Feiticeira Brasileira”

Narrativas sobre a Fome e a Adversidade em uma Comunidade Caiçara

Não foi uma, nem duas vezes que ouvi dizer que o Hallowen é uma festa inteiramente estranha à nossa cultura, que este ritual tem muito mais a ver com a história e as tradições dos Estados Unidos do que com o Brasil. Isso não é bem verdade. A bruxaria de alguma maneira, fez parte também de nossa história. Em algumas regiões de nosso vasto litoral existem sim, rituais que evocam a bruxaria e eles permitem conhecer um pouco do nosso processo de formação histórica.

Em Santa Catarina, existe até hoje uma tradição muito antiga entre os pescadores locais, a de continuarem a contar histórias onde a personagem principal é uma feiticeira, ou de um grupo delas. A região da Santa Catarina foi colonizada a partir do século XVIII por açorianos que vieram para o Brasil em busca de terras. Portugal promoveu naquela época, a maior operação de imigração de portugueses em uma única viagem. Vieram mais de 5000 açorianos, que desembarcaram nos portos do Rio de Janeiro e do Sul. Quantidade igual de portugueses a desembarcarem em terras brasileira, só aconteceria anos mais tarde, quando a Corte portuguesa aportou sua frota no Rio de Janeiro, em 1808.

No final do século XVIII, os Açores eram uma região do império português em crise, pois séculos de agricultura cultura canavieira esgotaram o meio ambiente local. Além disso, o solo vulcânico dificultava o acesso à terras férteis. A cultura da cana de açúcar, extensiva e predatória exige grandes quantidades de terras férteis e lá nos Açores, este recurso estava se esgotando.

Naquelas ilhas, os camponeses dividiam a sua rotina de trabalho entre as partidas de cana de açúcar cultivadas em médias propriedades e a pesca no mar. As mulheres ficavam à espera de seus maridos. Reuniam-se para não ficarem sozinhas e com o tempo, difundiu-se na ilha a lenda de que estas reuniões estavam ligadas aos “sabás” das bruxas, onde as mulheres mais velhas transmitiam os seus conhecimentos paras as mais jovens.

As bruxas e o Pescador  Pintura de Vera Sabino

As crises de fome e quebras de safras provocadas pela ação predatória do cultivo da cana de açúcar eram interpretadas pelo povo da região, como um “castigo” enviado pelos Céus, ou por figuras malignas interessadas em destruir a comunidade. São inúmeros os estudos sobre a relação entre o aparecimento de registros de bruxaria e crises agrícolas na Europa. Em todos eles, identifica-se como um tipo de padrão, a prática de estabelecer uma ligação entre as crises agrícolas e a prática de atribuir a responsabilidade por estas crises à um grupo de mulheres.

“As bruxas dos Açores”, que acabaram sendo transmigradas para o Brasil, é um interessante caso sobre como um tipo de representação religiosa é apropriada por uma comunidade de camponeses e pescadores emigrados da Europa, mas que se adaptaram a um novo ambiente, qual seja, o litoral Sul do Brasil. Mesmo hoje, nestas mesmas comunidades caiçaras, as “bruxas” são ainda vistas nas canoas de pesca de seus maridos, sempre em grupos, como se fosse um ‘sabá” em alto mar, daqueles que se dizia que eram praticados nas ilhas atlânticas.

A tradição de contar estas histórias, de geração em geração, ainda existente nas comunidades caiçaras do litoral de Santa Catarina permite entender um pouco mais do modo de vida destas comunidades tradicionais em todo o Brasil. Estas tradições são também uma oportunidade para a compreensão de um fenômeno que considero importante, qual seja, em que medida representações sociais, principalmente aquelas de caráter religioso possuem uma base material, econômica e social que está diretamente ligada ao surgimento de certas imagens, práticas e tradições no campo religioso. O caso das “feiticeiras brasileiras” que passaram a fazer parte das tradições populares das comunidades caiçaras do litoral de Santa catarina parece entrar nesta classificação.

Me parece neste caso, que a sobrevivência deste tipo de representação não seria possível se os imigrantes açorianos não tivessem encontrado no litoral de Santa Catarina, o mesmo cenário de dificuldades materiais que haviam deixado lá nos Açores. Nesse sentido, tomo a coragem de avançar na conjectura e perguntar em que medida as narrativas sobre a bruxarias não seriam, no fundo, uma fonte para entendermos as maneiras pelas quais as mulheres enfrentavam as adversidades materiais em economias agrárias. Ou seja, em que medida as histórias de bruxaria não seriam, em última instância, narrativas da necessidade?

Tal como em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos o enredo destas histórias de feiticeiras tem sempre como pano de fundo comunidades assoladas por extremas dificuldades materiais. Ou seja, a fome e o desespero tornam-se combustíveis para a criação de bodes expiatórios, que possam servir de explicação para explicar as razões da catástrofe. Mais ainda, vale ressaltar aqui como em muitas representações a “Fome” está diretamente associada à uma figura feminina, de preferência “feia”.

Considero este ensaio como uma primeira aproximação a dois temas que estão interligados entre si : um primeiro mais geral, seria a relação entre o surgimento de representação sociais de caráter religioso e uma base material, social e econômica que servisse de suporte e justificação para a continuidade e legitimação destas mesmas práticas. Nada do que escreve aqui é novo, dado que existe ampla literatura a respeito, desde Durkheim. Um outro tema, mais específico do ponto de vista geográfico seria investigar em que medida as comunidades “caiçaras”, ou seja, aquelas que tradicionalmente estão localizadas em vários pontos do litoral brasileiro criaram práticas religiosas diretamente ligadas ao seu cotidiano de comunidades de pescadores e camponeses pobres, como bem definiu Maria Luiza Marcílio.

Viagem Bruxolica de  Franklin Joaquim Cascaes Franklin , que por mais de trinta anos de trabalho, reuniu uma grande quantidade de informações sobre o folclore de Florianópolis por meio de pesquisas e entrevistas com antigos moradores da Ilha. São lendas que falam de reuniões de bruxas, bruxas que atacam pescadores, que roubam barcos, bruxas que bailam dentro de tarrafas de pescaria e de vassouras bruxólicas.

Como disse mais acima, a afirmação de que o “Hallowen “ é uma forma de “colonização cultural”, pois coloca uma personagem que em princípio não existiria em nossa cultura popular é apenas uma meia verdade. O resto desta verdade reside no fato de que a cultura popular européia foi incorporada ao contexto brasileiro. Esta cultura popular, misturada a elementos dos ritos indígenas e africanos produziu as figuras femininas da Pomba Gira, da Maria Padilha e da Maria Mulambo, todas identificadas como mulheres cujos poderes sexuais e sobrenaturais seriam capazes de provocar grandes desordens sociais e até mudanças climáticas.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a bruxaria evocada pela tradição do Hallowen é uma janela que permite compreender o papel das comunidades de imigrantes no processo de ocupação e colonização de uma terra estranha, como era a América nos tempos coloniais.

Mostra também como as mulheres, lá e aqui no Brasil, foram importantes na colonização. Rituais são formas estilizadas de encenar eventos passados considerados importantes por uma comunidade. De certa maneira, esta encenação é literal, pois as as pessoas vestem roupas à caráter, montam palcos e cenários, tudo para reviver estes momentos.

A festa do Hallowen na Nova Inglaterra, e as histórias das bruxas nas comunidades caiçaras do Sul do Brasil, encenam todos os anos um passado para que estas mulheres não caiam de vez no sono do esquecimento.


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