Por uma outra Cabo Frio – Por Denize Alvarenga

Cheguei em Cabo Frio com minha família em 1980. Eram tempos de progresso e a cidade estava em plena expansão. Eu tinha apenas 11 anos e tudo para mim era incrível. Fui estudar no Instituto de Educação Professora Ismar Gomes de Azevedo e, depois, fiz curso Normal no Colégio Municipal Rui Barbosa.

Praça Porto Rocha – Cabo Frio 1980 – Jornal do Brasil

Vivi os últimos anos do governo Alair Correa, depois, já formada, vi um visionário, meio louco, chegar à prefeitura. Ivo Saldanha, um estranho, forasteiro, rompia com um ciclo ZezinhoXAlair, mas indo contra as expectativas, não conseguiu fazer nenhuma revolução. Em seu governo, fizemos algumas grandes greves e a tal “meritocracia” tão propagada não rolou.

O esquema continuava o mesmo, com uma ou outra cara nova, mas em sua essência, as mesmas pessoas no poder. Mais um governo Zezinho que, desta vez, não decolou, na verdade, afundou. Na propaganda eleitoral seguinte a promessa de 20 anos no poder, vinte anos! Eu fazia as contas de cabeça e me assustava pensar em quase vinte anos a frente com esse modelo na prefeitura.

Chegaram os royalties e com ele a fartura, ao menos fartura de algumas famílias. Vi algumas grandes obras acontecerem, vi o bairro que moro ser asfaltado, as casas da descida da ponte desaparecerem, a orla sendo remodelada, e algumas obras nunca saírem do papel, como por exemplo, o tal centro de convenções que circulou no programa de quase todos os que estiveram no poder.

Vi bailes sendo oferecidos, migalhas sendo distribuídas como ópio para o servidor. Vivi essa troca de seis por meia dúzia do mesmo esquema político dando certo, não para a cidade, mas para o tal “grupo” político. A cidade que não se preparou, não se estruturou e, entre um ego e outro, o erário foi indo para o ralo, principalmente nas vaidades de “faz pista de skate, derruba pista”, “inaugura museu, reinaugura, inaugura de novo”.

Nesse vai e vem partidário, participei de algumas tentativas de reação da sociedade quando, por 24h, conseguimos suspender a licitação fraudulenta de mais 25 anos de concessão para a empresa de transporte que opera há mais de 50 anos nessa cidade ou quando tentamos, sem nenhum sucesso, impedir que a “modernidade” chegasse em forma de shopping em cima de um cemitério indígena, mas deixa para lá, tudo bem, eles fizeram uma homenagem ao povo indígena aterrado num lindo salão de exposição.

Pobre cidade rica, nossa Cabo Frio. Amargou a sede desenfreada de seus governantes por grana e não consegue sair desse modelo devastador. A falta de transparência contribuiu decisivamente para que os que viveram na sombra sugassem até a última gota sem nenhum incômodo. Não foram poucas as tentativas de jogar luz nesse abismo.

Agora, no fundo do poço, sem mais ter muito o que tirar, talvez possamos reinventar essa cidade. Com a fonte seca, talvez consigamos fazer surgir uma esperança. Quem sabe agora, depois de alguns escândalos e com a possibilidade palpável de colocar atrás das grades alguns figurões, possamos ter de volta a cidade para seus cidadãos e cidadãs.

Por Denize Alvarenga –  (Professora da Rede Municipal e Estadual de Cabo Frio)

Por uma outra Cabo Frio

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