De funcionário da Globo a morador de rua em Búzios

Ele é conhecido como Marcio Careca, tem mais de quarenta anos, mora há cerca de três anos   na Praça Santos Dumont, no centro de Búzios. “Moro bem a beça. Em uma das areas mais caras do Rio de Janeiro”. Diz de forma séria, não parece estar brincando.  Enquanto conversamos, alguns o saúdam de Marcio Maluco. Pergunto o por que, e e ele me diz que é porque gosta de morar  na rua. Junto dos “malucos doidos'”.  Desconfiado, aceitou falar comigo a pedido do jornalista, e amigo, Sandro Peixoto. Márcio já conhecia e era conhecido em Búzios muitos antes de escolher a rua como lar. Era funcionário da Rede Globo, isso na década de 90, “produtor de eventos, querido por todos do Projac.”, conta e revela que lá era conhecido como Mizuno.

Marcio sendo entrevistado na sua “casa”, a Praça Santos Dumont, centro de Búzios.A conversa aconteceu em janeiro de 2017 e só agora Victor (foto) resolveu escrever o texto. Foto Sandro Peixoto

“Eu ganhei esse apelido lá porque eu vendia tênis Mizuno pra todo mundo na Globo. Escondido, eu malocava em um armário na sala em que trabalhava. Meu chefe ganhava 20 mil e eu apenas 1.200, tinha que complementar fazendo uns corre. Dava um pulo em Madureira e voltava cheio de Mizuno. O filho do Chico Anysio, não é o Bruno Mazzeo, esqueci o nome dele. Ele comprava sempre comigo. Se amarrava muito na minha.”, revela.

Em Búzios ele vinha nas férias ou dias de folga. Gostava de vir de BMW, estacionava na Rua das Pedras (era de um amigo, insiste que deixe isso claro).  Seu point era a  calçada do  Chez Michou, onde encontrava a galera da Globo. “A rapaziada se reunia toda ali né. Fábio Assunção, aquele cara…Miguel Falabela…”. Tife, um dos sócios do grupo Michou, se lembra de Marcio nesse período glorioso.

Como ele parou na rua? Márcio conta que teve um problema. Lembram dos Mizunos? Então, um dia o chefe dele que,de acordo com Marcio, já estava bolado  com alguns atrasos e outras paradas, abriu o tal armário e caiu um monte de tênis na cabeça do cara. “Ficou puto. Quis entrar numa comigo. Mandei ele tomar no cu e ir pra puta que o pariu. Fui demitido.”, conta.

Marcio, na verdade, depois disso se aposentou (coisas pessoais, não vem ao caso aqui). Ele já morou em uma casa  em Búzios. Mas como já contou, “gosta de morar na rua com os malucos doidos”.  Emotivo, chorou ao se lembrar de algumas pessoas queridas do tempo de produtor. Peninha, que morreu ano passado, percussionista do Barão Vermelho, foi grande amigo.

Marcio contou como fez lotar o show do Rappa em Muriaé -MG, ainda no início da carreira. Contou que dois dias antes da nossa entrevista encontrou  Regina Casé na Turíbio de Farias, e a abraçou chorando. Falou com ela de o quanto sentia saudades do pai dela (Geraldo Casé), “o criador do Sitio do Pica Pau Amarelo na TV. “Eu assistia.”, lembrou-se da infância. Contou que a sua mãe e irmão vem frequentemente o visitar. Diz que respeitam sua escolha pela rua. Marcio tem filho adolescente. Se emociona mais uma vez ao contar.

Perguntado sobre o que acha das produções que são realizadas na Praça Santos Dumont, afirma: “Amadoras”.

Solidão? Diz não sentir. Perigo? Diz não correr, e que Búzios o trata bem. Namorada? Afirma que não quer saber de se amarrar mais. Sexo? É sagaz na resposta: “Também tem mulher morando na rua”.

“Sandro é maneiro, Espirro é maneiro. Fortalecem com um salgado.”, se mostra grato. Mas amigo, amigo mesmo, é Paul Sapateiro (também morador de rua  em Búzios,  mesmo sendo um talentoso sapateiro). “Irmão, irmão.”, afirma.

Conteúdo Prensa de Babel. Republicar citando autor, veículo com link p/ a publicação original

Leia também Mais do autor

Comentários estão fechados.