Cabelada faz 70 em Vila Isabel

Nosso querido Cabelada, juiz de futebol e estrela buziana, comemora seus 70 anos no próximo sábado (9) no Bar Sempre Vila, Avenida 28 de setembro 238, em Vila Isabel no Rio de Janeiro

Nosso querido Cabelada, juiz de futebol e estrela buziana, comemora seus 70 anos no próximo sábado (9) no Bar Sempre Vila, Avenida 28 de setembro 238, em Vila Isabel no Rio de Janeiro

Quem escuta a fala mansa, pausada, do ex-árbitro de futebol, se não sabe quem é não consegue associar a pessoa que fala com as das histórias das quais é protagonista e a tornam um dos personagens mais icônicos do futebol carioca. O nome de batismo é Luiz Carlos, mas todos o conhecem como Cabelada. Ganhou o apelido por cultivar uma longa cabeleira (é fã dos Beatles) – vaidoso, usa shampoo e cremes para mantê-los sempre sedosos, ele mesmo conta.

Carioca, boêmio, é de Vila Isabel, e há quase 20 anos é de Búzios também. Sobre essa união Rio-Búzios, antes de entrar nas clássicas histórias do tempo de árbitro, podemos começar pelo episódio de 2014, em que Cabelada interrompeu Nana Caymmi no Rio. “Canta um bolero! Canta um bolero!”, o senhor na plateia insistia. Nana a princípio o ignorou, mas Cabelada deu um golpe fatal que tornou seu pedido irrecusável: “Eu vim de Búzios pra escutar isso. Rasga meu coração!”. Nana cantou “La Barca” para ele. O fato foi notícia das colunas sociais de jornais e sites da capital.

No futebol foram mais de 400 partidas, a maioria no Campeonato Carioca. Só pra ilustrar esse tempo ele me conta sobre o caso de um zero a zero no amistoso entre Vasco e Cruzeiro (Cabelada é vascaíno). O ano era 1994:

“Fui apitar o jogo, entrega das faixas, e cruzei com o Eurico (Miranda, ex-presidente do Vasco). Era um jogo de festa. Ele perguntou: ‘Vai marcar um pênalti??’. Eu respondi: ‘Fica tranquilo’. Começou a partida, e logo marquei pênalti. Derrubaram o William. O Yan bateu para um lado, e o goleiro (Dida) caiu e defendeu. O Eurico estava no banco de reservas, fui lá e falei assim: ‘Meu diretor, não lhe devo mais nada’. Finalizei, e o jogo acabou 0 a 0”. No Jornal do Brasil a mesma história saiu assim: “O juiz Luiz Carlos Gonçalves, o barrigudo Cabelada, fez questão de marcar uma falta inexistente de Zelão em William, logo aos 2 minutos”. Cabelada, ainda hoje, confirma: “Foi pênalti!”. Curiosamente foi nessa época que nasceu seu famoso bordão: “Todo juiz é ladrão. Cabelada não!”.

Sua vida realmente sempre pareceu destinada a ser notícia. Se como árbitro estampou as páginas dos jornais de maior circulação do Rio de Janeiro, em Búzios tornou-se personagem das páginas e das capas do irreverente e anárquico “O Perú Molhado”. Nesse, aliás, foi repórter esportivo, comentarista e modelo. Cobriu pelo Perú Copas do Mundo e Olimpíadas – algumas de verdade, já outras, digamos, nem tanto. Nas Olimpíadas de 2008 o jornal que por mais de 30 anos movimentou Búzios, informou que enviaria dois repórteres para a China, um deles seria Cabelada. No final, a grana só deu pra mandar um representante, mas o jornal omitiu o fato e semanalmente relatos e imagens de ambos os repórteres surgiam na publicação. Nas verdade, Cabelada passava os dias escondido em sua casa, ali mesmo em Búzios. Na redação tratavam de fazer montagens dele cobrindo os jogos. Um dia seu estoque de cerveja acabou e precisou ir ao bar comprar mais, foi descoberto. O que o jornal fez? Publicou uma entrevista exclusiva com Cabelada contando o grande feito de como conseguia ir e voltar tão rápido à China. “A cerveja lá não é gelada, então tenho de vir aqui no Bar do Silvano para tomar uma”, explicou na entrevista.

Hoje, com 68 anos, Cabelada continua extrovertido, apesar de às vezes o encontrar mais calado, e tomando sua cerveja (na verdade muitas cervejas), fumando charutos cubanos, ouvindo boa música, soltando galanteios às mulheres (tudo com muito respeito) e viajando de Búzios para o Rio semanalmente. Respeitado na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) e nas rodas de samba, repete, elevando uma taça de vinho, em tom meio alegre e meio saudoso: “Se fui pobre não me lembro”.

Matéria publicada originalmente no Portal SRZD

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