Ativista trans, professora e pedagoga, Sara Wagner dá aula em entrevista exclusiva

Sara fala sobre identidade de gênero, invisibilidade trans e suas experiências como professora da rede pública

O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Entre 2008 e 2016, foram registradas 833 mortes de pessoas trans e travestis. Um monitoramento da Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (Rede Trans Brasil) aponta que, apenas neste ano, 25 travestis e transexuais foram assassinados no país.

A expectativa de vida de homens e mulheres trans no país é de 35 anos, sendo que para resto da população brasileira a expectativa é de 75 anos. O preconceito e a falta de acesso aos direitos básicos são os principais motivos por traz dessa violência.

Para iniciar o debate e melhor compreender os obstáculos enfrentados pela população trans no Brasil, além de perceber a aplicação de uma educação inclusiva, o Prensa de Babel conversou com a professora, mulher transexual e travesti, Sara Wagner York.

Sara é moradora de Cabo Frio, graduada em Letras/Inglês e Pedagogia. Ela também é Especialista em Gestão Pública na Cultura e pós-graduanda em MBA Executivo em Coaching e Orientação Vocacional e de Carreiras. Sara também é professora da rede pública de São Pedro da Aldeia.

Enquanto ativista LGBTQI+ trabalhou junto a ONG Britânica Sahir House, no Reino Unido, em ações de inclusão de refugiados vindos do Oriente Médio e África. Sara também é pesquisadora de Gênero, Inclusão, Diversidade com ênfase nas compreensões das Teorias Queer.

Sara palestrou em vários países. Em suas palestras fala em primeira pessoa sobre o processo de inclusão trans nas dinâmicas sócio educacionais, lutas e complexidades na contemporaneidade, num processo cartográfico de si, de modo a tornar a leitura de sua audiência plena dessa necessidade.

Prensa de Babel: Você é uma professora e ativista trans. Você mescla esses seus dois lados? Como faz isso?

Sara Wagner: Não é fácil. A gente está dentro de sala de aula conversando sempre. Tentando estreitar essas distâncias que existem. Eu sou professora de língua inglesa, de teatro e de alfabetização por conta da minha formação em pedagogia. Eu tento fazer a diferença e orgulho para os meus pares. Principalmente, durante esse governo que tem tanto assolado e machucado nossas dignidades primárias. A educação é o meio. E não existe educação solitária. Educação singular não existe. A educação reverbera.

Prensa: O que é e o que significa a sigla LGBTTQIA+? E qual a diferença de apenas LGBT?

Sara: Essa conversa começou nos anos 70 e 80, até o final dos anos 90, com um grupo que demandava uma certa militância específica que foi denominada “GLS”, ou, Gays, Lésbicas e Simpatizantes. Essa sigla contemplava um leque de pessoas, as mesmas que a sigla atual abrange, mas colocava os mesmos como os protagonistas dessas demandas.

Todos pensavam no “mundo gay” em cima de uma demanda GLS. De acordo com que fomos evoluindo percebemos que para entender um problema precisamos nomeá-lo. Sem nomes acabamos invisibilizando essas questões.  Assim, para que houvesse políticas públicas de inclusão a essas outras pessoas marginalizadas ou esclusas da sigla ‘GLS’ e as coisas fossem compreendidas mais amplamente foi criada a sigla LGBT, que significa Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis ou Transexuais. A partir daí conseguimos ter dinâmicas que conseguiram abraçar essas pessoas.

Porém, ainda existiam alguns desníveis e determinados indivíduos foram deixados ‘de fora’. Não estavam sendo atores protagonistas de suas histórias em relação as políticas públicas. Então se renomeou a sigla e virou LGBTTQIA.

Essa sigla compreende as Lésbicas, os Gays, os Bisexuais. O primeiro T representa as travestis e o segundo T, as transexuais e os homens trans. O Q simboliza aquelas pessoas que não se enquadram em nenhuma outra categoria, os não binários ou queer.

O I representa as pessoas intersexo, que são aqueles que tem variações congenitais de anatomia sexual ou reprodutiva que não se encaixam perfeitamente nas definições tradicionais de “homem” ou “mulher”. E por fim, o A de Assexual, que são aqueles a quem falta atração sexual por qualquer pessoa.

Prensa: Como é ser mulher, transexual e travesti? Como você se auto denomina no seu perfil?

Sara: Eu me denomino como mulher trans, mas acima de tudo como travesti para que um dia as travestis sejam compreendidas como professoras, pessoas que pensam e reverberam as suas próprias vidas e outras dinâmicas políticas e não pessoas que precisam se vender nas ruas para ter o mínimo de sobrevivência. Porque é o que temos nas cidades hoje. E estou me referindo a São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Búzios e muitas outras. E nós seguimos marginais. Sair da rua e ocupar espaços na sociedade nos faz pensar a vida de uma forma muito diferente.

Eu me denomino isso tudo. E ainda me digo lésbica. Porque sou mulher, me compreendo assim, dentro dessas características binárias que nós conhecemos.

Prensa: Em nossas conversas você contou que ouve muito essa pergunta específica. Principalmente de pais de alunos. Então, queremos saber. Quando você se descobriu “assim” transexual?

Sara: Quando me perguntam isso eu respondo normalmente com a seguinte retórica: “Mas e você quando se descobriu assim? Quando foi que você entendeu que era homem ou mulher? Quando foi que você teve um clique e percebeu ‘Nossa eu sou isso!’?”

A gente não tem isso. Nós vamos experienciando e a vida trazendo pra gente essas compreensões. Isso é a construção indenitária.

Prensa: Você pode falar sobre a questão da invisibilidade trans dentro das políticas públicas?

Sara: Isso é bem difícil. É uma questão difícil porque nós aceitamos muitas coisa. A gente aceita, por exemplo, uma mulher gostosa, pelada no Carnaval carioca. Mas, ao mesmo tempo, não aceitamos a nudez de um homem dentro de um museu. A mesma criança que viu um homem nú no museu, em um contexto artístico específico, vê a Globeleza nua, às 15h na televisão, apenas pintada.

Uma pessoa é criticada se ela estiver nua na presença de um homem. Isso é se essa pessoa for uma mulher, é claro. Se isso acontece dentro de padrões ditos “normais”. Que a gente sabe que não são normais, mas foram normatizados. Então, pensando nisso, é que a partir do momento que percebemos que estamos fora dos padrões, que não estamos dentro das duas caixas ‘homem’ e ‘mulher’, caixas que idealizamos, mas nunca vemos.

Assim, tudo que foge desses padrões não está apto a viver junto a sociedade. É mantido sempre a margem. É aí que começa a aparecer a exclusão das pessoas trans, dos corpos que são diferentes. Porque a sociedade não quer que se questione o que ela tem como “corpo ideal” como padrão ideal.

Prensa: Hoje é muito difundido o termo “ideologia de gênero” que, para muitos, estaria sendo instaurada para acabar com a “família tradicional”. O que você pode dizer sobre essa falácia?

Sara: Esse termo foi criado para ser usado a favor de estruturas que concepções feministas tentam tirar do centro e da normalização. A sociedade sempre foi pensada em compreensões da dualidade “homem e mulher” e não na trindade: identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico. Tudo que não estava dentro da caixa ‘homem e mulher’ era jogado fora e não era considerado.

Quando falamos de ideologia de gênero estamos nos referindo a um grupo que quer a manutenção desse pensamento dualista e excludente. Essas pessoas querem evitar a problematização e as conversas relacionadas a inserção de outros indivíduos, antes marginalizados, na sociedade e nas políticas públicas. Querem a manutenção do que acontece hoje. A ideologia de gênero é uma grande bobagem e idiotice.

Essas pessoas não sabem o que é uma ideologia. O que significa essa palavra? É algo que busca um ideal, algo imaginado. Gênero é tudo que envolve identidade e sexualidades. Esse termo indica que existe um ideal de gênero a ser seguido e almejado. E é exatamente o que vivemos hoje.

Prensa: Sara, por tudo isso que você nos falou, você teme violência contra você?

Sara: Eu não temo. Como todas as travestis que estão nas ruas de São Pedro, em Cabo Frio, em Búzios ou Rio das Ostras, eu não tenho medo. Porque o que nós tínhamos que passar já estamos passando. Não tem como piorar. Acordar de manhã e pensar se você vai ter o que comer. Isso já acontece. Por isso, o que ficamos esperando é diminuir as distâncias.

Há uns dois meses atrás eu estava em um posto de gasolina e encontrei uma menina trans de 14 anos que me disse: “Professora, quero ser sua aluna”.  E eu disse a ela que era só se matricular na escola que eu leciono. Porque aqui em São Pedro da Aldeia a rede pública abraça essas pessoas. Temos que fazer a educação valer a pena.

Como era meia noite eu perguntei a ela se não era muito tarde para ela estar na rua. Ela me disse: “Não tem problema, estou com a minha irmã”. E a outra menina tinha 16 anos. Eu já tinha entendido a situação, mas tentei insistir para todas irmos embora. Mas uma delas me falou. “Vamos depois. A nossa mãe está com a gente”. A mãe levava as duas filhas para se prostituir.

Eu durmo e acordo pensando nessas crianças. Por isso que eu digo. Precisamos de mais. Mais políticas públicas. Mais assistência para pessoas nessas situações.

Prensa: Então terminamos Sara. Obrigada por ter conversado conosco. Em nome do Prensa de Babel quero te agradecer por ter aberto seu coração para todos nós. Obrigada.

Sara: Eu que quero agradecer. A vocês e a todos que assistiram ao live. Quero agradecer também a todas as pessoas que saíram de suas zonas de conforto e foram para a zona de confronto. Porque se expor é muito difícil. Dar a cara a tapa para falar desse assunto é muito difícil. Então agradeço a todos que lutam. Porque as novas compreensões sobre gênero, sexualidade, educação não podem ser paradas.

Veja aqui o vídeo com a entrevista de Sara Wagner York. 

Texto jornalistico assinado. Propriedade do Prensa.Para publicar citar autor e veiculo

Entrevista ao vivo com a professora transexual e travesti Sara Wagner York no Facebook do Prensa

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