Trump, os desastres do fim do mundo – e a velocidade do ciclo das notícias

 

A tua jogada, homem foguete!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim do mês de setembro, escrevi um artigo em que especulei a respeito dessa guerra de palavras, infantil mas arrepiante, entre o Presidente Donald Trump dos EUA, num dos cantos do ringue, e o Presidente Kim Jong-um da República Popular Democrática da Coréia, ou seja, Coréia do Norte, no outro. Lembram-se? Trump tratou Kim de Rocket Man, homem foguete. Kim, em retaliação, tratou Trump de um “mentalmente perturbado senil”. Trump, na seqüência, tratou Kim de Little Rocket Man, homenzinho foguete. E as farpas continuavam a voar nos dois sentidos. Especulei que essas provocações talvez fossem nada mais do que um embuste – um show – montado pelos dois protagonistas para a satisfação e entretenimento dos seus dois públicos de base – pessoas, nos dois lados, tão sedentas por um bom banho de sangue quanto os romanos que lotavam o Coliseu na antiguidade. Admiti até a possibilidade de que os dois chamados lideres liguem um para o outro por Skype, na calada da noite, e riam como hienas a respeito do sucesso da tramóia. Observei também que essa interpretação da sua dança do fogo não era mais implausível do que a interpretação alternativa, isto é, que os dois estão se precipitando em direção de uma guerra termonuclear sem a mais mínima consciência das conseqüências.

 

De qualquer forma, submeti o artigo à redação deste jornal virtual na manhã de sábado, dia 30 de setembro. E não sei por quê, e não quero saber por quê, mas o artigo foi publicado só no dia 5 de outubro, seis dias depois de ter sido escrito, e até essa data, tinha sido ultrapassado por eventos. E ultrapassado mais uma vez e de novo. Tinha a sensação de que estava pagando mico por não ter colocado um “urgente” e alguns pontos de exclamação no campo “assunto” do email que carregava o artigo. Hoje em dia, as mentiras, sobre tudo na forma de notícias falsas, são premiadas. As mentiras nessa forma até determinam o desfecho das nossas eleições. Mas nada mais vergonhoso do que a defasagem. Mico.

 


O Secretário de Estado fala

O que tinha acontecido, então, para tornar esse artigo, escrito no penúltimo dia de setembro, tão arcaico e, portanto, ridículo quando foi publicado seis dias mais tarde, no dia 5 de outubro? Vamos, primeiro, seguir o fio da batalha de comida entre Trump e Kim. Mal tinha encaminhado meu artigo e li, num novo artigo no The New York Times, que Rex Tillerson, o Secretário de Estado dos EUA, o chanceler, estava tentando tranqüilizar as pessoas que prefeririam não ver a cidade de Los Angeles desaparecer sob bombardeio nuclear norte-coreano em troca do prazer de incinerar toda a Coréia do Norte. Diferentemente de Trump, Tillerson mora, aparentemente, em território pelo menos nas cercanias da realidade; entende que uma troca de ogivas nucleares teria conseqüências distintas das de um videogame. Tillerson garantiu que os EUA e a República Popular Democrática, etc., estavam, na verdade, em contato um país com o outro através de canais diplomáticos convencionais. “Falamos com eles diretinho”, acrescentou – sem intermediários. As declarações de Tillerson pareciam confirmar meu próprio palpite de que a guerra de comida não fosse nada mais do que um divertimento para a gentalha enquanto, nos bastidores, um monte de profissionais adultos trabalhava para garantir que o Século XXI não saia completamente do trilho ainda na sua adolescência.

 

Mas, dia seguinte, dia primeiro de outubro, um domingo, mais uma reviravolta. Às 7h31, Trump tuita: I told Rex Tillerson, our wonderful Secretary of State, that he is wasting his time trying to negotiate with Little Rocket Man…” E, imediatamente depois: “…Save your energy Rex, we’ll do what has to be done!” Uau! ‘’Falei para Rex Tillerson, nosso maravilhoso secretário de Estado, que ele está desperdiçando seu tempo tentando negociar com o homezinho foguete. Poupe suas energias, Rex, faremos o que tiver que ser feito.” Não quero demorar muito num comentário de ironia barata a respeito dessa palavra “wonderful” – mais ou menos “maravilhoso”. Mas tem que ser observado que, no inglês de agora, um bolo de aniversário pode ser “wonderful”. Uma visita a um parque de atrações pode ser “wonderful” – se você gosta desse tipo de coisa. Um “wonderful Secretary of State”? Locução totalmente juvenil. Mas o que estava acontecendo? Se Trump e Kim estivessem encenando, teatralmente, os preliminares de uma guerra que não ia acontecer (simplesmente para entreterem suas bases), Trump e Tillerson estavam bancando uma dessas duplas de tira bom e tira mal que todos nós conhecemos, se não na realidade, então nos filmes policiais hollywoodianos. O tira mal grita com o suspeito. Ameaça esvaziar a boca dele de dentes. O tira bom consegue fazê-lo confessar. Ou talvez estivéssemos testemunhando uma coisa mais tenebrosa. Não temos um governo lá nos EUA, meu país de origem. Temos somente um amontoado de agentes independentes, cada um com sua própria política estrangeira e nuclear.

 

Mais dois ou três dias passam sem, ainda, chegarmos ao dia 5, e sabemos na imprensa que Tillerson, numa reunião reservada, caracterizou Trump como um “moron”. Em português? Eu diria “imbecil” – só que “moron” talvez insista, em medidas mais iguais do que “imbecil”, na debilidade mental e na ignorância dessas informações básicas que uma pessoa necessita para funcionar no seu dia-a-dia. Pressionado pela imprensa para confirmar que ele tinha, de fato, falado assim, Tillerson se esquivou. Recusou-se de confirmar. Mas também não negou. Mais um dia passa e uma fonte confiável acrescenta um detalhe. Tillerson não tinha caracterizado Trump, nessa reunião, simplesmente como “moron” mas, mais especificamente, como “fucking moron”. Tradução caridosa? “Imbecil mesmo.” Mas qualquer um de vocês que já assistiu a uma meia dúzia de filmes norte-americanos, fora das categorias para crianças, sabe que “fucking” tem um charme enfático de que “mesmo” talvez careça.

 

Tillerson, ex-CEO da maior empresa de petróleo e gás de capital aberto no mundo, ExxonMobil, não é, na verdade, um “wonderful” Secretário de Estado. É um péssimo Secretário de Estado. Mas, num mundo em que Trump é o Príncipe das Trevas, Tillerson não é nada pior do que um dos demônios menores. É até uma força de contrapeso. Mas o demônio maior não tolera nem deslealdade nem crítica. Adule ou saia. Essas são, basicamente, as duas opções. A probabilidade é grande que Tillerson volte logo à vida privada.

 

Os boleiros protestam — história antiga

Que mais? Nesse artigo que submeti no dia 30 e que foi publicado no dia 5, escrevi um pouco sobre como, durante o hino nacional, cada vez mais jogadores de futebol americano estavam se ajoelhando, ao invés de ficando de pé, em sentido, em protesto contra a violência policial contra negros país afora. Trump disse que os manifestantes deveriam ser demitidos. A polêmica dominou as manchetes durante uma semana. Mas tal é a velocidade do ciclo das notícias que, até o dia 5, já parecia pertencer à história antiga. Falei bastante, também, no meu artigo sobre a reação de Trump à série de desastres que devastou grandes porções dos estados de Texas e Flórida e os territórios americanos no Caribe, mas, nesse departamento assim como em todos os outros, a situação tinha evoluído muito entre o dia 30, quando submeti, e o dia 5, quando o artigo foi publicado.

 

A prefeita de San Juan veste a camiseta de honra

No dia 30 mesmo, foi noticiado que a prefeita de San Juan, a capital da ilha de Porto Rico, tinha criticado a morosidade e a fraqueza da operação de socorro das autoridades federais, e no dia 30, às 8h19, Trump tuitou: “The Mayor of San Juan, who was very complimentary only a few days ago, has now been told by the Democrats that you must be nasty to Trump.” “A prefeita de San Juan, que foi muito elogiosa há apenas alguns dias, agora recebeu ordens dos democratas de que deveria ser desagradável com Trump”. Essa tradução não é minha. Encontrei no site G1. No site do jornal O Globo: “Agora os democratas disseram a ela que ela deve ser má com Trump”. Mas “nasty” é uma dessas palavras que, hoje em dia, pertence quase exclusivamente ao vocabulário particular e extremamente bizarro do nosso capeta-mor, e nem a palavra “desagradável” (do G1) nem a palavra “má” (do Globo) captura a bizarrice e a feiúra totalmente sui generis de “nasty”. Melhor do que “má” ou “desagradável” seria, em minha opinião, rancorosa ou maldizente. Uma pessoa com algum verdadeiro peso no mundo não seria “nasty”. Nastiness – o substantivo – é a arma das pessoas impotentes, ou seja, de pessoas que ficam confinadas à margem dos eventos e atiram bolinhas de papel ou cuspe aos atores principais sem grande efeito.

Mas não é a primeira

Ouvia a palavra às vezes na minha infância; já que poucas pessoas além de Trump usam, cedi à tentação ao alcance da minha mão. Pesquisei no arquivo de todos os tuites dele, e lá encontrei 46 ocorrências – menos duas, na verdade, se eliminarmos as referências ao reality show Duck Dynasty. Não surpreende nada, a grande maioria das pessoas caracterizadas como “nasty” são mulheres, ou seja, na mente de Trump, bruxas. Carmen Yulín Cruz, a prefeita de San Jaun é “nasty”. Hillary era “nasty”. Impressionante como Trump consegue dar novo fôlego a tantas palavras moribundas.Trump disse também que sua administração estava fazendo um “trabalho fantástico” em Porto Rico. Foi a Porto Rico para observar os estragos e, numa cena bizarra, numa instalação onde um monte de sobreviventes tinha se reunido à procura de suprimentos, atirou rolos de toalha de papel pelo ar. Rapaz, sabemos que a toalha de papel moderna tem mais absorvência que a toalha de papel de 30 anos atrás, mas você não entende que a ilha de Porto Rico tinha sido inundada? Carmen Yulín Cruz, a prefeita de San Juan, vestiu-se numa camiseta impressa com a palavra “nasty” e outras mulheres começaram a se identificar como “nasty” ou “nasties” como um distintivo de honra.

 

Massacre em Las Vegas

E aí veio o momento em que tudo que tinha escrito até o dia 30 foi, por assim dizer, zerado – sem nem sequer o valor de um grão de areia. Na segunda, dia 2, acordei lá pelas 7h30, e minha mulher Barbara, que quase não dorme, que passa a noite monitorando as notícias dos quatro cantos do mundo com nada mais do que breves momentos de descanso, perguntou se eu já havia visto as manchetes a respeito do massacre em La Vegas. Tinha não. Mas sabia que, pelo menos por enquanto, a polêmica sobre o protesto dos jogadores de futebol tinha sido eclipsado.

 

Não contem comigo para uma análise dessa carnificina. Acabo de ler Henrique Gomes Batista, Adriana Carranca e Fernando Gabeira no Globo desta manhã, domingo, e não tenho nada a acrescentar.

 

Nessa última segunda, dia depois do massacre, jantávamos com um amigo e vizinho que vou identificar simplesmente como DB. Ele solicitou a nossa opinião do atentado. Na verdade, ele conhece a terra de Trump quase tão intimamente como nós, nativos, mas, depois de tudo, é “nossa” terra mais do que a terra dele. Temos, Barbara e eu, determinada responsabilidade moral. Mas, depois de atestarmos a nossa oposição convicta ao assassínio em massa, não tínhamos nenhuma resposta mais incisiva nessa primeira hora do que a que eu tenho agora.

 

Um silêncio caiu. DB disse, finalmente, “Deve ser uma coisa cultural”.

 

Na hora, também não respondemos a isso. Mas quase uma semana inteira já passou por baixo da ponte e Las Vegas, como tudo mais, está se tornando história antiga. Mas tenho, finalmente, uma resposta a essa observação sobre coisas culturais.

 

“Qual exatamente a sua definição de cultural, prezado e querido DB?”

 

Quem está contemplando uma viagem aos EUA: Fiquem alerta. Mantenham a cabeça baixa.

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