Uma onda atrás da outra

Victor Viana é jornalista, escritor. Editor do Prensa de Babel e morador de Búzios, no Rio de Janeiro.
Victor Viana é jornalista, escritor. Editor do Prensa de Babel e morador de Búzios, no Rio de Janeiro.

Quando eu tinha 12 anos morava em Cachoeiras de Macacu, região serrana do Rio, e passava férias duas vezes por ano em Barra de São João, na Região dos Lagos. Certa vez chegamos em Barra, eu e meu primo Alex, eram as férias de julho, fazia um pouco de frio, corremos pra praia assim mesmo. As ondas estavam grandes e o mar, convidativo. Sonhávamos com a praia durante todo o ano. Entramos sem medo.

Fomos entrando, entrando, meu primo, mais forte e mais audacioso estava  sempre na minha frente. Eu seguia tranquilo e empolgado. Comecei a me sentir sem  folego, e os braços cansados. A vaga de uma onda pra outra era curta e eu tinha que furar muitas vezes seguidas. Percebi rápido que não aguentaria continuar. Eu tinha de voltar pra areia.

Tentei dar um primeiro fôlego em direção à praia, uma onda grande veio e tive de furar de novo. Voltei à superfície e quando ia nadar de novo outra onda veio e tive de mergulhar mais uma vez. Eu não iria aguentar.

Pensei muito rápido, coisa de segundos: Vou me deixar levar,de caldo em caldo eu chego na areia mais rápido. E assim fiz. A primeira onda bateu e me levou pro fundo,  mantive os olhos abertos (me pareceu mais seguro), me movimentei freneticamente de volta à superfície. Peguei o ar que pude e levei outra porrada. Olhos abertos e me movimentando contra a pressão que me jogava pro fundo. Outra porrada, e outra porrada, e outra porrada, estava mesmo longe da praia, tinha ido longe demais pra mim. Eu já levantava certo que teria alguns segundo pra pegar ar e que outra onda viria sem dó. E assim foi até a hora que me senti sendo cuspido pelo mar. Caí na areia como um verme (é essa mesmo a sensação que tenho ao lembrar).

Venci? Não. Ainda  precisava rastejar (não tinha forças pra levantar)para longe da maré. Me movimentei como aquelas imagens de desenhos animados em que homens rastejam sedentos em dunas do deserto, subindo o ‘murundu’ de areia. Lá, a uma distância que  já me parecia segura de que as ondas da arrebentação não me levassem de volta pra dentro do mar, eu fechei os olhos e acho que dormi por alguns segundos (não pode ter durado muito). O tempo que passei deitado (alternei um estado de meia consciência- se é que isso existe) eu sentia um misto de desejo que alguém me visse e me acolhesse, ajudasse, e de que ninguém me visse, pois estava envergonhado do meu fracasso. Meu primo nem deu minha falta, seguiu feliz nadando.

Quando senti que conseguiria levantar o fiz. Caminhei trôpego pelo gramado do Praião, atravessei a rua da praia (já era calçada) e cheguei em casa meio tonto e sem conseguir falar muito. Alguns perceberam que eu estava estranho, mas o máximo que perguntaram era se eu estava passando mal, essas coisas. Houve até um comentário insensível de que eu era fresco. Hoje vejo que tios e tias pensavam cruelmente isso do sobrinho  um pouco mais frágil fisicamente e emocionalmente mais sensível (são realmente características complicadas pra quem  nasce destinado a viver pra sempre em uma aldeia de capiais). Eu ousei ir embora da aldeia pra nunca mais voltar.

Em 2016 tomei a decisão de que iria montar um site de notícias, Sandro Peixoto quis entrar comigo na empreitada, sabíamos que a grana (ao menos pra quem é honesto) em um jornal demora a chegar. Mas ele tinha a fonte de renda dos negócios dele e eu um emprego de editor e mais rendimentos de contas de assessoria de imprensa. Eu tinha muitas promessas de grande investimentos para 2017,  me pareciam bem sólidas- eram ondas altas e o mar me pareceu convidativo. Fui sem medo.

Passada as eleições de outubro,  percebi que algumas coisas não estavam tão sólidas. Fui demitido do jornal  (algo que de certa forma  eu queria que acontecesse) e contratado através de prestação de serviços da minha empresa para produzir conteúdo da Região dos Lagos. Isso me tiraria da “segurança” da CLT, mas me colocaria mais perto dos meus filhos. Por dois anos trabalhei feito um louco e  um dia  vi meu filho mais velho se vestindo sozinho, e falou comigo com a voz mais grave – senti que não o estava vendo crescer. O primeiro mês do acordo me pagaram direito, dois dias de atraso apenas (pra Região dos Lagos tava bom).

No segundo mês não pagaram e no terceiro também não. Eu tinha uma assistente, o pagamento dela era condicionado ao meu. Eles estavam sendo filhos da puta comigo, nas eu não me permito ser filho da puta com os outros, tirei da minha pequena reserva pra que ela não ficasse sem receber. De repente as contas de assessoria foram chegando ao final dos contratos e não sendo renovadas, a desculpa era a crise. Uma crise inventada em 2015 para derrubar um governo, e propagandeada a exaustão até que se tornasse real em 2017.

A graninha do FGTS e rescisão que pensava em juntar em uma poupança pros filhos evaporou com pagamento de dívidas e a tentativa, em vão, de deixar o nome limpo.

Eu cobrava  o que me deviam com tato (explicava a situação e buscava ainda assim cumprir a minha parte no acordo), quando se tem filhos e se vem da classe operária você  nasce na corda bamba entre  lutar pelos seus direitos ou engolir uns  sapos  para ao menos receber um troco ao fim do mês. Isso acontece porque quem nasce em famílias sem nome, não tem cama elástica pra te aparar quando cai da corda.

Parti pra  tentar  os resgate das contas de assessoria, oferecer novos serviços, houve negativas e pedidos de espera para que passasse o Natal, depois a virada do ano, depois  o carnaval (nada funciona antes do carnaval, me disseram todos), depois  os telefones ficaram mudos e os dois tracinhos do whatsap deixaram de ficar azul às minhas mensagens.

Chegou a hora que tive de cobrar com força o diretor do jornal, estava insustentável. recebi tudo, mas picado ao longo de duas semanas. Respirei e esperei a onda que me levaria de volta ao fundo. Sim, aquela experiência com o mar na infância me ensinou alguma coisa. Após me aborrecerem de todas as maneiras  com detalhes que gastaram tempo e grana (que não me foi reembolsada) para adequar a minha empresa a umas normas deles, me ligaram pra avisar, não o dono que acertou comigo, mas seu escudeiro mais politico e educado (ao menos não é um covarde). Estava sendo desfeito o contrato. Após os anos de esforço, sacrifícios, exposição, tendo montado equipes onde o pagamento desses nunca era acertado nas datas corretas, eu que tinha de me desgastar  acalmando os ânimos e limpando a barra da empresa (que vergonha disso), me chutaram após eu ter me enrolado todo financeiramente por conta dos atrasos de pagamentos deles. Eu com um filho recém-nascido. Engoli o ar que pude e esperei a onda que viria sem dó mais uma vez.

Me vi tendo só o Prensa como única tábua de salvação em meio ao mar turbulento. Não havia planejamento pra isso. O plano era estar 100% nisso apenas após dois anos de solidificação do negócio. Tive que dispensar o jornalistas que contratamos, duro demitir na hora que todos precisam continuar. Um pouco de ar e esperar outra onda que me empurra pra baixo, eu de olhos abertos me movimento freneticamente pra cima. Espernear e não aceitar que joguem um pá de terra sobre você é uma teimosia de filho de pobre que assusta e irrita os que te julgam por morto (mas por quantos anos aguentamos fazer esse mesmo  movimento?).

Os empresários, em especial os de Búzios, que sempre estão a reclamar dos jornais da  cidade que, de acordo com eles, estão vendidos ao Poder Público, investiriam em propaganda para colaborar na manutenção de um veículo livre? Claro que não. Um respiro e mais uma onda na cabeça.

Eu ontem me senti cuspido pelo mar. E, como disse na minha recordação da história, ainda estou longe de ter vencido. Porque tenho de rastejar até a parte mais segura da praia para descansar.

Há algo de diferente nessa quase repetição da minha história: tem rolado uma rede de solidariedade. Pessoas se mostraram amigas, algumas até inesperadas. Gil Castelo Branco teve visão e está apoiando o Prensa com o seu Festival Gastronômico- em uma seriedade e compromisso a que só posso ter elogios a fazer. Caverna com sua ideia do Cozinhando Embriagado, que aceitei dirigir, cumprindo também os compromissos e  me contando a sua história de levar ondas na cabeça (mesmo Minas não tendo mar) até que conseguisse estar aqui em Búzios. Sandro sendo  mais que um sócio, desde que eu era estudante de jornalismo, um amigo. Fábio Emecê, também na turbulência de ser  professor do estado do Rio, dando sempre o suporte emocional. Apoio do meu irmão 15 anos mais novo, que me emprestou dinheiro. Vinicius da Premissa dando suporte tecnológico e consultoria de SEO para o Prensa  como um investimento no futuro. Hamber semana passada bateu no portão e descarregou legumes e frutas aqui em casa.  Outras pessoas suavizando esse momento; mesmo sendo empresários, com parcerias anti-capitalistas estão nos ajudando: Karina do Café Porteño, o mestre das lutas Chuck e o produtor de teatro e TV Marcelo Pires.

Camila (Raupp), minha esposa, sempre forte, sempre positiva, sempre criativa e inteligente se dobra e desdobra pra que possamos chegar lá em cima, na areia onde o mar não alcança. Eu hoje como pai, com 35 anos,  não sinto vergonha de por um tempo estar caído e de aceitar as ofertas de ajuda.

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