O dia que Michael Jackson nos uniu

Dá série Crônicas Pessoais

Victor Viana é jornalista, escritor. Editor do Prensa de Babel e morador de Búzios, no Rio de Janeiro.
Victor Viana é jornalista, escritor. Editor do Prensa de Babel e morador de Búzios, no Rio de Janeiro

Em sua última passagem pelo Brasil, em 1996, Michael Jackson gravou o clipe da canção “They Don’t Care About Us”, na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro e no Pelourinho, em Salvador.  O que poucos sabem é que o Rei do Pop esteve na minha casa, lá na velha Ribeira, em Cachoeiras de Macacu, por cerca de 5 horas.

Certo fim de tarde estava eu, meus pais e meu irmão Leo sentados na sala de casa – fazia calor, como é comum em Cachoeiras de Macacu, quando começou a se formar pesadas nuvens de tempestade no céu, ventos fortes que fizeram um canal de TV qualquer que estávamos assistindo sofrer uma forte interferência e parar de passar o que seja lá estivessem transmitindo e surgiu ele, Michael Jackson. De forma exclusiva o sinal via satélite chegou, eu acho, a nossa parabólica mostrando Michael ao vivo gravando cenas da parte do clip que se passa no Morro Santa Marta. Éramos uma das poucas famílias a ter uma antena dessas, meu pai a conseguiu em troca de seus serviços de eletricista aos filhos de um fazendeiro.

Logo todos nós lá em casa vimos que estávamos diante de uma coisa única. Michael fazia os seus movimentos característicos, em silêncio (sem música) e de repente ele parava. Alguém vinha e ajeitava seu cabelo, coloca mais um pouco de pó no seu rosto, arrumava sua blusa do Olodum.  Michael voltava a dançar e mover os lábios, nós não o escutávamos cantar, mas não importava. Em um dado momento ele parou de dançar e mostrou algo em sua calça. Rapidamente algumas pessoas vieram começaram a limpar o local. Ele fez que ia dançar, mas preferiu sair e ficou a imagem apenas mostrando o morro. Depois Michael voltou, pode talvez ter trocado de calça, uma calça da mesma cor.

“Esse Michael Jackson é fera”, disse meu pai, disse minha mãe… concordando como tempos não faziam.  Descobri ali que minha casa toda compartilhava da minha admiração por ele. Tanto que após esse episódio passamos a ter uma brincadeira que durou anos. Quando meu irmão Leo, que com uns 8 ou 9  anos era bem gordinho, vinha andando pelo quintal e um de nós dizíamos: “Leo, imita o Michael Jackson aí!”.  Ele se revirava desengonçado levantando a mão direita, com a mão esquerda puxava os testículos para cima, imitando o gesto famoso de Michael. No fim ele gritava Uhuauuuuuu! Riamos. Algo tão estranho nos unia.

Mas voltando a transmissão; durante todo o tempo nos alegramos com aquelas imagens. Meu pai repetiu como uma novidade, o que todos sabíamos: “Ele quando era pequeno tinha um grupo chamado Jackson Five!”. E ainda complementou: “Os Cinco Jackson”, em português! Meu pai disse isso com tom de quem domina o idioma de Shakespeare. Meu pai não fala nem entende inglês. Minha mãe disse que Michael era bonito quando era negro, e lembrou que minha avó gostava de o ver dançando no Jackson Five. Minha avó? Eu ia ficando feliz com tanta capacidade da minha família em um interior naquele tempo tão esquecido ter tido acesso a TV pra poder ver o Jackson Five, e ao mesmo tempo pensava de forma critica sobre a força da distribuição da cultura americana no Brasil. Minha avó?

Os fortes ventos sessaram, as nuvens pesadas e cinzas como chumbo foram se dissipando (não chegou a chover) e o céu ficou laranja como a gema de ovo, era o final da tarde, a noite já vinha. A imagem do Michael foi sumindo, sumindo, até desaparecer de vez. Levantamos todos,  e a vida voltou ao normal. Meus pais passaram a se falar cada vez menos. Não tenho outra lembrança da família inteira sentada  na sala vendo algo na TV após esse dia. Acho que nunca mais sentamos juntos à sala. E isso foi em 1996.

Por Victor Viana

Ou o dia que me tornei um sábio bêbado.

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